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Marina Colasanti

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Poemas de José Régio

Soneto de amor

Josér Régio

Não me peças palavras, nem baladas, Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio, Deixa cair as pálpebras pesadas, E entre os seios me apertes sem receio. Na tua boca sob a minha, ao meio, Nossas línguas se busquem, desvairadas... E que os meus flancos nus vibrem no enleio Das tuas pernas ágeis e delgadas. E em duas bocas uma língua..., - unidos, Nós trocaremos beijos e gemidos, Sentindo o nosso sangue misturar-se. Depois - abre os teus olhos, minha amada! Enterra - os bem nos meus; não digas nada... Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

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Adão e Eva

José Régio

Olhámo-nos um dia, E cada um de nós sonhou que achara O par que a alma e a cara lhe pedia. – E cada um de nós sonhou que o achara... E entre nós dois Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente, ... Se deu, e se dará continuamente: Na palma da tua mão, Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado. – Meu nome é Adão... E em que furor sagrado Os nossos corpos nus e desejosos Como serpentes brancas se enroscaram, Tentando ser um só! Ó beijos angustiados e raivosos Que as nossas pobres bocas se atiraram Sobre um leito de terra, cinza e pó! Ó abraços que os braços apertaram, Dedos que se misturaram! Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri, Sede que nada mata, ânsia sem fim! – Tu de entrar em mim, Eu de entrar em ti. Assim toda te deste, E assim todo me dei: Sobre o teu longo corpo agonizante, Meu inferno celeste, Cem vezes morri, prostrado... Cem vezes ressuscitei Para uma dor mais vibrante E um prazer mais torturado. E enquanto as nossas bocas se esmagavam, E as doces curvas do teu corpo se ajustavam Às linhas fortes do meu, Os nossos olhos muito perto, imensos, No desespero desse abraço mudo, Confessaram-se tudo! ... Enquanto nós pairávamos, suspensos Entre a terra e o céu. Assim as almas se entregaram, Como os corpos se tinham entregado, Assim duas metades se amoldaram Ante as barbas, que tremeram, Do velho Pai desprezado! E assim Eva e Adão se conheceram: Tu conheceste a força dos meus pulsos, A miséria do meu ser, Os recantos da minha humanidade, A grandeza do meu amor cruel, Os veios de oiro que o meu barro trouxe... Eu, os teus nervos convulsos, O teu poder, A tua fragilidade Os sinais da tua pele, O gosto do teu sangue doce... Depois... Depois o quê, amor? Depois, mais nada, – Que Jeová não sabe perdoar! O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada... Continuamos a ser dois, E nunca nos pudemos penetrar!

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Pérola solta

José Régio

Sem que eu a esperasse, Rolou aquela lágrima No frio e na aridez da minha face. Rolou devagarinho..., Até à minha boca abriu caminho. Sede! o que eu tenho é sede! Recolhi-a nos lábios e bebi-a. Como numa parede Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou, Na boca me cantou, Breve como essa lágrima, Esta breve elegia.

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Canção de primavera

José Régio

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores, Pois que Maio chegou, Revesti-o de clâmides de cores! Que eu, dar, flor, já não dou. Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves, Acordai desse azul, calado há tanto, As infinitas naves! Que eu, cantar, já não canto. Eu, invernos e outonos recalcados Regelaram meu ser neste arrepio... Aquece tu, ó sol, jardins e prados! Que eu, é de mim o frio. Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio, Vem com tua paixão, Prostrar a terra em cálido desmaio! Que eu, ter Maio, já não. Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto; Ter sol, não tenho; e amar... Mas, se não amo, Como é que, Maio em flor, te chamo tanto, E não por mim assim te chamo?

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Metafísica

José Régio

De cada vez que nos teus braços Por uns momentos morro, Nos abismos de mim o meu amor pede socorro Como se à força alguém lhe desatasse os laços. De cada vez apreendo Que fica em muito pouco, ou nada, aquele tanto Que o querer ter promete, enquanto Se não tendo. Desejar é que é ter! mas não nos basta. Sonhar é que é possuir sem tédio nem cansaços. Sei-o, mas só já morto nos teus braços. Sofre a carne de ter, ou de ser casta. Sobre o desejo farto, a alma se debruça, Contempla o nada a que o fartá-lo aponta. E atrás do mesmo nada eis que ela mesma, tonta, Vai, se a carne reacende a escaramuça. Entrar num corpo até onde se oculte O para Lá do corpo - eis o supremo sonho. De que desejos o componho, Se ei-lo se descompõe quando o desejo avulte? Sôfrega, a carne pede carne. Saciada, Pede, ela própria, o que jamais sacia. Para de novo se inflamar, é um dia. Para de novo desgostar, um nada. Ai, como não te amar e não te aborrecer, Carne de leite e rosas, - terra inglória Do longo prélio-entendimento sem vitória Que é carne e alma, ter-não ter?

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Epitáfio para uma velha donzela

José Régio

De palmito e capela, Qual manda a tradição, Erecta, lá vai ela Ser atirada ao chão. De rosário na mão, Lutou heroicamente Contra a vil tentação Do que nos pede a carne e a alma come. Secreta, ansiosa, augusta, descontente Dentro da sua túnica inconsútil, Engelhou toda à fome, Por fim morreu à sede, No seu heroísmo fútil. Bichos! penetrai vós no pobre corpo inútil!

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Sabedoria

José Régio

Desde que tudo me cansa, Comecei eu a viver. Comecei a viver sem esperança... E venha a morte quando Deus quiser. Dantes, ou muito ou pouco, Sempre esperara: Às vezes, tanto, que o meu sonho louco Voava das estrelas à mais rara; Outras, tão pouco, Que ninguém mais com tal se conformara. Hoje, é que nada espero. Para quê, esperar? Sei que já nada é meu senão se o não tiver; Se quero, é só enquanto apenas quero; Só de longe, e secreto, é que inda posso amar... E venha a morte quando Deus quiser. Mas, com isto, que têm as estrelas? Continuam brilhando, altas e belas.

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Fado Português

José Régio

O Fado nasceu um dia, Quando o vento mal bulia E o céu o mar prolongava, Na amurada dum veleiro, No peito dum marinheiro Que, estando triste, cantava, Que, estando triste, cantava. Ai, que lindeza tamanha, Meu chão, meu monte, meu vale, De folhas, flores, frutas de oiro, Vê se vês terras de Espanha, Areias de Portugal, Olhar ceguinho de choro. Na boca dum marinheiro Do frágil barco veleiro, Morrendo a canção magoada, Diz o pungir dos desejos Do lábio a queimar de beijos Que beija o ar, e mais nada, Que beija o ar, e mais nada. Mãe, adeus. Adeus, Maria. Guarda bem no teu sentido Que aqui te faço uma jura: Que ou te levo à sacristia, Ou foi Deus que foi servido Dar-me no mar sepultura. Ora eis que embora outro dia, Quando o vento nem bulia E o céu o mar prolongava, À proa de outro veleiro Velava outro marinheiro Que, estando triste, cantava, Que, estando triste, cantava.

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Poema do Silêncio

José Régio

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Sim, foi por mim que gritei. Declamei, Atirei frases em volta. Cego de angústia e de revolta. Foi em meu nome que fiz, A carvão, a sangue, a giz, Sátiras e epigramas nas paredes Que não vi serem necessárias e vós vedes. Foi quando compreendi Que nada me dariam do infinito que pedi, -Que ergui mais alto o meu grito E pedi mais infinito! Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, Eis a razão das épi trági-cómicas empresas Que, sem rumo, Levantei com sarcasmo, sonho, fumo... O que buscava Era, como qualquer, ter o que desejava. Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo, Tinham raízes banalíssimas de egoísmo. Que só por me ser vedado Sair deste meu ser formal e condenado, Erigi contra os céus o meu imenso Engano De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano! Senhor meu Deus em que não creio! Nu a teus pés, abro o meu seio Procurei fugir de mim, Mas sei que sou meu exclusivo fim. Sofro, assim, pelo que sou, Sofro por este chão que aos pés se me pegou, Sofro por não poder fugir. Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir! Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! (Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...) Senhor dá-me o poder de estar calado, Quieto, maniatado, iluminado. Se os gestos e as palavras que sonhei, Nunca os usei nem usarei, Se nada do que levo a efeito vale, Que eu me não mova! que eu não fale! Ah! também sei que, trabalhando só por mim, Era por um de nós. E assim, Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade, Lutava um homem pela humanidade. Mas o meu sonho megalómano é maior Do que a própria imensa dor De compreender como é egoísta A minha máxima conquista... Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, E sobre mim de novo descerá... Sim, descerá da tua mão compadecida, Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. E uma terra sem flor e uma pedra sem nome Saciarão a minha fome.

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Cântico

José Régio

Num impudor de estátua ou de vencida, coxas abertas, sem defesa... nua ante a minha vigília, a noite, e a lua, ela, agora, descansa, adormecida. Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida, meu olhar desce aonde o sexo estua. Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua sobre funduras e confins da vida. Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos... enquanto o luar a numba, inerte, gasta da ternura feroz do meu amplexo. Cantam-me as veias poemas nunca feitos... e eu pouso a boca, religiosa e casta, sobre a flor esmagada do seu sexo.

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Ode a Eros

José Régio

Eros, Cupido, Amor, pequeno Deus travesso Com quem todos brincamos! Brincando nos ferimos, Ferindo-nos gozamos, Se rimos já choramos, Mal que choramos rimos... Já, voltados do avesso, Por igual o voltamos, O torturamos nós como ele nos tortura, Descemos aos recessos da criatura... Pequenino gigante! Sonhava, ou não sonhava, Quem te representou risonho e pequenino Que de Hércules a clava Não pesa como pesa a tua mão de infante, Nem seu furor destrói Como nos dói Teu riso de menino? Nas tuas leves setas Nas flâmulas gentis Que cantam os poetas E os namorados juvenis, Que longos ópios e letais licores, Que pântanos de lodo e que furores, Que grinaldas de louros e de espinhos, Que abissais labirintos de caminhos! Mascarilha de seda e de veludo Sob a qual o olhar brilha, a boca ri, Que olhar ambíguo ou mudo, Que boca atormentada Não terás além ti Na mascarada? Pai da Crueldade e da Piedade, Filho do Crime e da Beleza, Que infante serás tu, que, desde que há Idade, Aos Ícaros opões a mesma astral parede, E os Lázaros susténs dos restos dessa mesa Em que se bebe sempre a mesma sede, Se come A mesma fome? Divindade noturna Que te cinges de rosas, Suprema fúria mascarada Que a porta abres do céu... escancarada Sobre o negro vazio duma furna, Que a urna de cristal nas mãos formosas Vens ofertar às bocas sequiosas E escorres sangue do cristal da urna, Que tens tu afinal, ao fundo da caverna Sempre aos mortais vedada: A eterna morte... o nada, Ou a vida eterna?

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Novo epitáfio para uma velha donzela

José Régio

Não conheceu do amor as vãs complicações Nem o prazer e as suas decepções. Por isso é que os fiéis das sensações Tiveram sua vida por frustrada. Viveu de leve, humilde e afável, encerrada No mistério sem mito em que morreu. Da sua vida mais intensa, nada Chegou ao mundo, que não era seu. Sobre esta laje fria, Por memória Dessa ignorada história Inscreveu esta coisa fugidia Aquele de quem foi secretamente amada.

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Novo epitáfio para um poeta

José Régio

Na terra nua, as asas desdobraram, Espigaram, Deram flor. Se ali passar alguém Que tenha o olfacto fino e o dom do humor, Dirá que aquele morto é um amor: Dá flor e cheira bem.

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Epitáfio para um poeta

José Régio

As asas não lhe cabem no caixão! A farpela de luto não condiz Com seu ar grave, mas, enfim, feliz; A gravata e o calçado também não. Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela! Descalcem-lhe os sapatos de verniz! Nao vêem que ele, nu, faz mais figura, Como uma pedra, ou uma estrela? Pois atirem-no assim à terra dura, Ser-lhe-á conforto: Deixem-no respirar ao menos morto!

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