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Poemas de Gonçalves Dias

Canção do Exílio

Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite — Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu´inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.

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Se se morre de amor

Gonçalves Dias

Se se morre de amor! — Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surpreende De ruidoso sarau entre os festejos; Quando luzes, calor, orquestra e flores Assomos de prazer nos raiam n´alma, Que embelezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança! Simpáticas feições, cintura breve, Graciosa postura, porte airoso, Uma fita, uma flor entre os cabelos, Um quê mal definido, acaso podem Num engano d´amor arrebatar-nos. Mas isso amor não é; isso é delírio, Devaneio, ilusão, que se esvaece Ao som final da orquestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes no morrer despedem: Se outro nome lhe dão, se amor o chamam, D´amor igual ninguém sucumbe à perda. Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração — abertos Ao grande, ao belo; é ser capaz d´extremos, D´altas virtudes, té capaz de crimes! Compr´ender o infinito, a imensidade, E a natureza e Deus; gostar dos campos, D´aves, flores, murmúrios solitários; Buscar tristeza, a soledade, o ermo, E ter o coração em riso e festa; E à branda festa, ao riso da nossa alma Fontes de pranto intercalar sem custo; Conhecer o prazer e a desventura No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto O ditoso, o misérrimo dos entes; Isso é amor, e desse amor se morre! Amar, e não saber, não ter coragem Para dizer que amor que em nós sentimos; Temer qu´olhos profanos nos devassem O templo, onde a melhor porção da vida Se concentra; onde avaros recatamos Essa fonte de amor, esses tesouros Inesgotáveis, d´ilusões floridas; Sentir, sem que se veja, a quem se adora, Compr´ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos, Segui-la, sem poder fitar seus olhos, Amá-la, sem ousar dizer que amamos, E, temendo roçar os seus vestidos, Arder por afogá-la em mil abraços: Isso é amor, e desse amor se morre! Se tal paixão porém enfim transborda, Se tem na terra o galardão devido Em recíproco afeto; e unidas, uma, Dois seres, duas vidas se procuram, Entendem-se, confundem-se e penetram Juntas — em puro céu d´êxtases puros: Se logo a mão do fado as torna estranhas, Se os duplica e separa, quando unidos A mesma vida circulava em ambos; Que será do que fica, e do que longe Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio? Pode o raio num píncaro caindo, Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos; Pode rachar o tronco levantado E dois cimos depois verem-se erguidos, Sinais mostrando da aliança antiga; Dois corações porém, que juntos batem, Que juntos vivem, — se os separam, morrem; Ou se entre o próprio estrago inda vegetam, Se aparência de vida, em mal, conservam, Ânsias cruas resumem do proscrito, Que busca achar no berço a sepultura! Esse, que sobrevive à própria ruína, Ao seu viver do coração, — às gratas Ilusões, quando em leito solitário, Entre as sombras da noite, em larga insônia, Devaneando, a futurar venturas, Mostra-se e brinca a apetecida imagem; Esse, que à dor tamanha não sucumbe, Inveja a quem na sepultura encontra Dos males seus o desejado termo!

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Recordação

Gonçalves Dias

Quando em meu peito as aflições rebentam Eivadas de sofrer acerbo e duro; Quando a desgraça o coração me arrocha Em círculos de ferro, com tal força, Que dele o sangue em borbotões golfeja; Quando minha alma de sofrer cansada, Bem que afeita a sofrer, sequer não pode Clamar: Senhor, piedade; — e que os meus olhos Rebeldes, uma lágrima não vertem Do mar d´angústias que meu peito oprime: Volvo aos instantes de ventura, e penso Que a sós contigo, em prática serena, Melhor futuro me augurava, as doces Palavras tuas, sôfregos, atentos Sorvendo meus ouvidos, — nos teus olhos Lendo os meus olhos tanto amor, que a vida Longa, bem longa, não bastara ainda por que de os ver me saciasse!... O pranto Então dos olhos meus corre espontâneo, Que não mais te verei. — Em tal pensando De martírios calar sinto em meu peito Tão grande plenitude, que a minha alma Sente amargo prazer de quanto sofre.

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Seus olhos

Gonçalves Dias

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, Estrelas incertas, que as águas dormentes Do mar vão ferir; Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Têm meiga expressão, Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta De noite cantando, — mais doce que a frauta Quebrando a solidão, Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, São meigos infantes, gentis, engraçados Brincando a sorrir. São meigos infantes, brincando, saltando Em jogo infantil, Inquietos, travessos; — causando tormento, Com beijos nos pagam a dor de um momento, Com modo gentil. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Assim é que são; Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos, Às vezes vulcão! Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco, Tão frouxo brilhar, Que a mim me parece que o ar lhes falece, E os olhos tão meigos, que o pranto umedece Me fazem chorar. Assim lindo infante, que dorme tranqüilo, Desperta a chorar; E mudo e sisudo, cismando mil coisas, Não pensa — a pensar. Nas almas tão puras da virgem, do infante, Às vezes do céu Cai doce harmonia duma Harpa celeste, Um vago desejo; e a mente se veste De pranto co´um véu. Quer sejam saudades, quer sejam desejos Da pátria melhor; Eu amo seus olhos que choram em causa Um pranto sem dor. Eu amo seus olhos tão negros, tão puros, De vivo fulgor; Seus olhos que exprimem tão doce harmonia, Que falam de amores com tanta poesia, Com tanto pudor. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Assim é que são; Eu amo esses olhos que falam de amores Com tanta paixão.

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O Amor

Gonçalves Dias

Amor! enlevo d´alma, arroubo, encanto Desta existência mísera, onde existes? Fino sentir ou mágico transporte, (O quer que seja que nos leva a extremos, Aos quais não basta a natureza humana;) Simpática atração d´almas sinceras Que unidas pelo amor, no amor se apuram, Por quem suspiro, serás nome apenas? A inútil chama ressecou meus lábios, Mirrou-me o coração da vida em meio, E à terra fez baixar a mente errada Que entre nuvens, amor, por ti bradava! Não te pude encontrar! — em vão meus anos No louco intento esperdicei; gelados, Uns após outros a cair precípites Na urna do passado os vi; eu triste, Amor, por ti clamava; — e o meu deserto Aos meus acentos reboava embalde. Em vão meu coração por ti se fina, Em vão minha alma te compreende e busca, Em vão meus lábios sôfregos cobiçam Libar a taça que aos mortais of´reces! Dizem-na funda, inesgotável, meiga; Enquanto a vejo rasa, amarga e dura! Dizem-na bálsamo, eu veneno a sorvo: Prazer, doçura, — eu dor e fel encontro! Dobrei-me às duras leis que me impuseste, Curvei ao jugo teu meu colo humilde, Feri-me aos teus ardentes passadores, Prendi-me aos teus grilhões, rojei por terra... E o lucro?... foram lágrimas perdidas, Foi roxa cicatriz qu´inda conservo, Desbotada a ilusão e a vida exausta! Celeste emanação, gratos eflúvios Das roseiras do céu; bater macio Das asas auribrancas dalgum anjo, Que roça em noite amiga a nossa esfera, Centelha e luz do sol que nunca morre; És tudo, e mais qu´isto: — és luz e vida, Perfume, e vôo d´anjo mal sentido, Peregrinas essências trescalando!... Também passas veloz, — breve te apagas, Como duma ave a sombra fugitiva, Desgarrada voando à flor de um lago!

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Sempre Ela

Gonçalves Dias

Eu amo a doce virgem pensativa, Em cujo rosto a palidez se pinta, Como nos céus a matutina estrela! A dor lhe há desbotado a cor das faces, E o sorriso que lhe roça os lábios Murcha ledo sorrir nos lábios doutrem. Tem um timbre de voz que n´alma ecoa, Tem expressões d´angélica doçura, E a mente do que as ouve, se perfuma De amor profundo e de piedade santa, E exala eflúvios dum odor suave De aloés, de mirra ou de mais grato incenso. E nessas horas, quando a mente aflita, De dor oculta remordida, anseia Desabrochar-se em confidência amiga, "Neste mundo o que sou? — triste clamava; "Pérsica envolta em pó, entre ruínas, "Erma e sozinha a resolver-me em pranto! "Flor desbotada em hástea já roída, "De cujo tronco as outras amarelas "Já rojam sobre o pó, já murchas pendem! "É sentir e sofrer a minha vida!" Merencória dizia, erguendo os olhos Aos céus dum claro azul, que lhes sorriam. Nada o mudo alcion por sobre os mares, E próximo a seu fim desata o canto; A rosa do Sarão lá se despenha Nas águas do Jordão: e como a rosa, Como o cisne, do mar entre os perfumes, Aos sons duma Harpa interna ela morria! E como o partor que avista a linda rosa Nas águas da corrente, e como o nauta Que vê, que escuta o cisne ir-se embalado Sobre as águas do mar, cantando a morte; Eu também a segui — a rosa, o cisne, Que lá se foi sumir por clima estranho. E depois que os meus olhos a perderam, Como se perde a estrela em céus infindos, Errei por sobre as ondas do oceano, Sentei-me à sombra das florestas virgens, Procurando apagar a imagem dela, Que tão inteira me ficara n´alma! Embalde aos céus erguendo os olhos turvos Meu astro procurei entre os mais astros, Qu´outrora amiga sina me fadara! Com brilho embaciado e lua incerta Nos ares se perdeu antes do ocaso, Deixando-me sem norte em mar d´angústias.

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