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Poemas de Murilo Mendes

Reflexão nº1

Murilo Mendes

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio Nem ama duas vezes a mesma mulher. Deus de onde tudo deriva E a circulação e o movimento infinito. Ainda não estamos habituados com o mundo Nascer é muito comprido.

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Gilda

Murilo Mendes

Não ponha o nome de Gilda na sua filha, coitada, Se tem filha pra nascer Ou filha pra batisar. Minha mãe se chama Gilda, Não se casou com meu pai. Sempre lhe sobra desgraça, Não tem tempo de escolher. Também eu me chamo Gilda, E, pra dizer a verdade Sou pouco mais infeliz. Sou menos do que mulher, Sou uma mulher qualquer. Ando à-toa pelo mundo. Sem força pra me matar. Minha filha é também Gilda, Pro costume não perder É casada com o espelho E amigada com o José. Qualquer dia Gilda foge Ou se mata em Paquetá Com José ou sem José. Já comprei lenço de renda Pra chorar com mais apuro E aos jornais telefonei. Se Gilda enfim não morrer, Se Gilda tiver uma filha Não põe o nome de Gilda, Na menina, que não deixo. Quem ganha o nome de Gilda Vira Gilda sem querer. Não ponha o nome de Gilda No corpo de uma mulher.

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O utopista

Murilo Mendes

Ele acredita que o chão é duro Que todos os homens estão presos Que há limites para a poesia Que não há sorrisos nas crianças Nem amor nas mulheres Que só de pão vive o homem Que não há um outro mundo.

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A mãe do primeiro filho

Murilo Mendes

Carmem fica matutando no seu corpo já passado. — Até à volta, meu seio De mil novecentos e doze. Adeus, minha perna linda De mil novecentos e quinze. Quando eu estava no colégio Meu corpo era bem diferente. Quando acabei o namoro Meu corpo era bem diferente. Quando um dia me casei Meu corpo era bem diferente. Nunca mais eu hei de ver Meus quadris do ano passado... A tarde já madurou E Carmem fica pensando.

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O filho do século

Murilo Mendes

Nunca mais andarei de bicicleta Nem conversarei no portão Com meninas de cabelos cacheados Adeus valsa "Danúbio Azul" Adeus tardes preguiçosas Adeus cheiros do mundo sambas Adeus puro amor Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem Não tenho forças para gritar um grande grito Cairei no chão do século vinte Aguardem-me lá fora As multidões famintas justiceiras Sujeitos com gases venenosos É a hora das barricadas É a hora da fuzilamento, da raiva maior Os vivos pedem vingança Os mortos minerais vegetais pedem vingança É a hora do protesto geral É a hora dos vôos destruidores É a hora das barricadas, dos fuzilamentos Fomes desejos ânsias sonhos perdidos, Misérias de todos os países uni-vos Fogem a galope os anjos-aviões Carregando o cálice da esperança Tempo espaço firmes porque me abandonastes.

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Cantiga de Malazarte

Murilo Mendes

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo, ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. Não desprezo nada que tenha visto, todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos, destelho as casas penduradas na terra, tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando. Desloco as consciências, a rua estala com os meus passos, e ando nos quatro cantos da vida. Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido, não posso amar ninguém porque sou o amor, tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigo. Sou o espírito que assiste à Criação e que bole em todas as almas que encontra. Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo. Nada me fixa nos caminhos do mundo.

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Modinha do empregado de banco

Murilo Mendes

Eu sou triste como um prático de farmácia, sou quase tão triste como um homem que usa costeletas. Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher mas só ouço o tectec das máquinas de escrever. Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda. Quantas meninas pela vida afora! E eu alinhando no papel as fortunas dos outros. Se eu tivesse estes contos punha a andar a roda da imaginação nos caminhos do mundo. E os fregueses do Banco que não fazem nada com estes contos! Chocam outros contos para não fazerem nada com eles. Também se o diretor tivesse a minha imaginação o Banco já não existiria mais e eu estaria noutro lugar.

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Pré-história

Murilo Mendes

Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som, Equilibrou-se no azul, De tonta não mais olhou Para mim, para ninguém! Cai no álbum de retratos.

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A tesoura de Toledo

Murilo Mendes

Com seus elementos de Europa e África, Seu corte, inscrição e esmalte, A tesoura de Toledo Alude às duas Espanhas. Duas folhas que se encaixam, Se abrem, se desajustam, Medem as garras afiadas: Finura e rudeza de Espanha, Rigor atento ao real, Silêncio espreitante, feroz, Silêncio de metal agindo, Aguda obstinação Em situar o concreto, Em abrir e fechar o espaço, Talhando simultaneamente Europa e África, Vida e morte.

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Canção do exílio

Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturamos de Veneza. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista, os sargentos do exército são monistas, cubistas, os filósofos são polacos vendendo a prestações. A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos. Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda. Eu morro sufocado em terra estrangeira. Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade e ouvir um sabiá com certidão de idade!

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Canto a García Lorca

Murilo Mendes

Não basta o sopro do vento Nas oliveiras desertas, O lamento de água oculta Nos pátios da Andaluzia. Trago-te o canto poroso, O lamento consciente Da palavra à outra palavra Que fundaste com rigor. O lamento substantivo Sem ponto de exclamação: Diverso do rito antigo, Une a aridez ao fervor, Recordando que soubeste Defrontar a morte seca Vinda no gume certeiro Da espada silenciosa Fazendo irromper o jacto De vermelho: cor do mito Criado com a força humana Em que sonho e realidade Ajustam seu contraponto. Consolo-me da tua morte. Que ela nos elucidou Tua linguagem corporal Onde el duende é alimentado Pelo sal da inteligência, Onde Espanha é calculada Em número, peso e medida.

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Cartão postal

Murilo Mendes

Domingo no jardim público pensativo. Consciências corando ao sol nos bancos, bebês arquivados em carrinhos alemães esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani. Passam braços e seios com um jeitão que se Lenine visse não fazia o Soviete. Marinheiros americanos bêbedos fazem pipi na estátua de Barroso, portugueses de bigode e corrente de relógio abocanham mulatas. O sol afunda-se no ocaso como a cabeça daquela menina sardenta na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.

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A Tentação

Murilo Mendes

Diante do crucifixo Eu paro pálido tremendo “Já que és o Verdadeiro Filho de Deus Desprega a humanidade desta cruz”.

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