Ma Bohème (Fantasie)
Rimbaud
E lá me ia, as mãos nos bolsos furados, E meu casaco era também o ideal. Eu ia sob o céu, Musa! e te era leal; Oh! lá! lá! que esplêndidos amores sonhados! Minha única calça estava em frangalhos — Pequeno Polegar sonhador, em minha fuga eu ia Desfiando rimas e sob a Ursa Maior adormecia, Ouvindo no céu o doce rumor das estrelas. Sentado à beira das estradas eu as ouvia, Belas noites de setembro em que eu sentia O orvalho em meu rosto como um vinho forte; Quando compondo em meio a sombras fantásticas, Como uma lira eu puxava os elásticos De meus sapatos gastos, um pé junto ao meu peito!
facebooktwitterTerceiro Soneto de Les Stupra
Rimbaud
Franzida e obscura como um ilhós Violeta, Ela respira, humilde, entre a relva Rociada Ainda do amor que desce a branda Rampa das Brancas nádegas até o coração da Greta. Filamentos iguais a lágrimas de leite Choraram sob o vento atroz que os Arrecada E os impele através de marnas Arruivadas Até perderem-se na fenda dos Deleites.
facebooktwitterAo Sol
Rimbaud
Ela foi encontrada! Quem? A eternidade. É o mar misturado Ao sol. Minha alma imortal, Cumpre a tua jura Seja o sol estival Ou a noite pura. Pois tu me liberas Das humanas quimeras, Dos anseios vãos! Tu voas então... — Jamais a esperança. Sem movimento. Ciência e paciência, O suplício é lento. Que venha a manhã, Com brasas de satã, O dever É vosso ardor. Ela foi encontrada! Quem? A eternidade. É o mar misturado Ao sol.
facebooktwitterNo Cabaré Verde
Rimbaud
Às cinco horas da tarde Oito dias a pé, as botas rasgadas Nas pedras do caminho: em Charleroi arrio. — No Cabaré-Verde: pedi umas torradas Na manteiga e presunto, embora meio frio. Reconfortado, estendo as pernas sob a mesa Verde e me ponho a olhar os ingênuos motivos De uma tapeçaria. — E, adorável surpresa, Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos — Essa, não há de ser um beijo que a amedronte! — Sorridente me trás as torradas e um monte De presunto bem morno, em prato colorido; Um presunto rosado e branco, a que perfuma Um dente de alho, e um chope enorme, cuja espuma Um raio vem dourar do sol amortecido.
facebooktwitterCanção da Torre Mais Alta
Rimbaud
Mocidade presa A tudo oprimida Por delicadeza Eu perdi a vida. Ah! Que o tempo venha Em que a alma se empenha. Eu me disse: cessa, Que ninguém te veja: E sem a promessa De algum bem que seja. A ti só aspiro Augusto retiro. Tamanha paciência Não me hei de esquecer. Temor e dolência, Aos céus fiz erguer. E esta sede estranha A ofuscar-me a entranha. Qual o Prado imenso Condenado a olvido, Que cresce florido De joio e de incenso Ao feroz zunzum das Moscas imundas.
facebooktwitterSensation
Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei, Roçando os trigais, pisando a relva miúda: Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei: E o vento banhando-me a cabeça desnuda. Nada falarei, não pensarei em nada: Mas um amor imenso me irá envolver, E irei longe, bem longe, a alma despreocupada, Pela Natureza — feliz como com uma mulher.
facebooktwitterBaile dos Enforcados (Fragmento)
Rimbaud
Dançam, dançam os paladinos, Os magros paladinos do diabo, Os esqueletos dos Saladinos.
facebooktwittersmsMinha Boemia
Rimbaud
Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos; O meu paletó não era bem o ideal; Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal; Ah! E sonhava mil amores insensatos Minha única calça tinha um largo furo. Pequeno Polegar, eu tecia no percurso Um rosário de rimas. A Grande Ursa, O meu albergue, brilhava no céu escuro. Sentado na sargeta, só, eu a ouvia Nessa noite de setembro em que sentia O odor das rosas, que vinho vigoroso! Ali, entre inúmeros ombros fantásticos, Rimava com a débil lira dos elásticos De meus sapatos, e o coração doloroso!
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