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Poemas Sobre o Dia

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Viagem de Inverno

Luis Filipe Castro Mendes

Aquieta-se o silêncio na folhagem, que em árvores teceu amor antigo; sobressalto transposto da viagem que o dia rumoroso fez consigo. O coração, que é sombra na paisagem, dá às palavras vãs outro sentido; e é murmúrio desfeito na aragem, que do entardecer recolhe abrigo. Ares assim se fazem de uma luz que torna como baço o sol poente; e o coração à estrema se reduz, como o dia se volve mais ausente. Recolhem-se as palavras no vagar que dia nem fulgor nos podem dar.

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Saúl Dias

Essência

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Todos os dias nascem pequeninas nuvens, róseas umas, aniladas outras, nacaradas espumas... Todos os dias nascem rosas, também róseas ou cor de chá, de veludo... Todos os dias nascem violetas, as eleitas dos pobres corações... Todos os dias nascem risos, canções... Todos os dias os pássaros acordam nos seus ninhos de lãs... Todos os dias nascem novos dias, nascem novas manhãs...

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As Pedras Negras

Gastão Cruz

Que fizeste do dia que ao nascer era névoa? Uma palavra igual à noite Nada e tudo ficara desse corpo volátil Onde estavam as formas do amor o futuro passado? Interpretaste a ausência uma face destinada ao desastre.

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Poemas

Álvaro de Campos

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros, Contente da minha anonimidade. Domingo serei feliz — eles, eles... Domingo... Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo... Nenhum domingo. Nunca domingo. Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem. Assim passa a vida, Sutil para quem sente, Mais ou menos para quem pensa: Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo, Não no nosso domingo, Não no meu domingo, Não no domingo... Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!

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Existência

De que céu caído, oh insólito, imóvel solitário na onda do tempo? És a duração, o tempo que amadurece num instante enorme, diáfano: flecha no ar, branco embelezado e espaço já sem memória de flecha. Dia feito de tempo e de vazio: desabitas-me, apagas meu nome e o que sou, enchendo-me de ti: luz, nada. E flutuo, já sem mim, pura existência.

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Canções

Cecília Meireles

De que são feitos os dias? - De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias - do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças...

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Clepsidra

Camilo Pessanha

Foi um dia de inúteis agonias. Dia de sol, inundado de sol!... Fulgiam nuas as espadas frias... Dia de sol, inundado de sol!... Foi um dia de falsas alegrias. Dália a esfolhar-se, _o seu mole sorriso... Voltavam ranchos das romarias. Dália a esfolhar-se, _o seu mole sorriso... Dia impressível mais que os outros dias. Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!... Difuso de teoremas, de teorias... O dia fútil mais que os outros dias! Minuete de discretas ironias... Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!...

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Cancioneiro

Fernando Pessoa

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DiaComeça a ir ser dia, O céu negro começa, Numa menor negrura Da sua noite escura, A Ter uma cor fria Onde a negrura cessa. Um negro azul-cinzento Emerge vagamente De onde o oriente dorme Seu tardo sono informe, E há um frio sem vento Que se ouve e mal se sente. Mas eu, o mal-dormido, Não sinto noite ou frio, Nem sinto vir o dia Da solidão vazia. Só sinto o indefinido Do coração vazio. Em vão o dia chega Quem não dorme, a quem Não tem que ter razão Dentro do coração, Que quando vive nega E quando ama não tem. Em vão, em vão, e o céu Azula-se de verde Acinzentadamente. Que é isto que a minha alma sente? Nem isto, não, nem eu, Na noite que se perde.

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