fechar
Receba diariamente lindas mensagens para se inspirar!

Você vai receber até 1 mensagem por dia R$ 0,39+tributos por mensagem recebida. Assinatura diária, renovação automática. Para cancelar envie
SAIR para o 50005. Se
tiver dúvida, envie AJUDA
para 50005. Serviço
válido para todas
as operadoras.

Anterior
Querido John

Querido John. O Best Seller mais romântico dos últimos tempos.

Anterior
Próxima
Eugênio de Andrade

Poemas de Eugênio de Andrade.

Próxima

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

Destruição

Sophia de Mello Breyner Andresen

Exausta fujo às arenas do puro intolerável os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado a cidade onde habito é rica de desastres embora exista a praia lisa que sonhei.

facebooktwittergoogle+

Deriva III

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi as águas os cabos vi as ilhas E o longo baloiçar dos coqueirais Vi lagunas azuis como safiras Rápidas aves furtivos animais Vi prodígios espantos maravilhas Vi homens nus bailando nos areais E ouvi o fundo som das suas falas Que nenhum de nós entendeu mais Vi ferros e vi setas e vi lanças Oiro também à flôr das ondas finas E o diverso fulgor de outros metais Vi pérolas e conchas e corais Desertos fontes trémulas campinas Vi o rosto de Eurydice das neblinas Vi o frescor das coisas naturais Só do Preste João não vi sinais As ordens que levava não cumpri E assim contando tudo quanto vi Não sei se tudo errei ou descobri.

facebooktwittergoogle+
Publicidade

Escuto

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escuto mas não sei Se o que oiço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho Solenidade e risco.

facebooktwittergoogle+
sms

Navio naufragado

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vinha de um mundo Sonoro, nítido e denso. E agora o mar o guarda no seu fundo Silencioso e suspenso. É um esqueleto branco o capitão, Branco como as areias, Tem duas conchas na mão Tem algas em vez de veias E uma medusa em vez de coração. Em seu redor as grutas de mil cores Tomam formas incertas quase ausentes E a cor das águas toma a cor das flores E os animais são mudos, transparentes. E os corpos espalhados nas areias Tremem à passagem das sereias, As sereias leves dos cabelos roxos Que têm olhos vagos e ausentes E verdes como os olhos de videntes.

facebooktwittergoogle+

Cantar

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tão longo caminho E todas as portas Tão longo o caminho Sua sombra errante Sob o sol a pino A água de exílio Por estradas brancas Quanto Passo andado País ocupado Num quarto fechado As portas se fecham Fecham-se janelas Os gestos se escondem Ninguém lhe responde Solidão vindima E não querem vê-lo Encontra silêncio Que em sombra tornados Naquela cidade Quanto passo andado Encontrou fechadas Como vai sozinho Desenha as paredes Sob as luas verdes É brilhante e fria Ou por negras ruas Por amor da terra Onde o medo impera Os olhos se fecham As bocas se calam Quando ele pergunta Só insultos colhe O rosto lhe viram Seu longo combate Silêncio daqueles Em monstros se tornam Tão poucos os homens.

facebooktwittergoogle+

Liberdade

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade.

facebooktwittergoogle+

As Amoras

Sophia de Mello Breyner Andresen

O meu país sabe as amoras bravas no verão. Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul.

facebooktwittergoogle+
sms

Ausência

Sophia de Mello Breyner Andresen

Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

facebooktwittergoogle+

O Rei da Ítaca

Sophia de Mello Breyner Andresen

A civilização em que estamos é tão errada que Nela o pensamento se desligou da mão Ulisses rei da Ítaca carpinteirou seu barco E gabava-se também de saber conduzir Num campo a direito o sulco do arado.

facebooktwittergoogle+

Barco

Sophia de Mello Breyner Andresen

Margens inertes abrem os seus braços Um grande barco no silêncio parte. Altas gaivotas nos ângulos a pique, Recém-nascidas à luz, perfeita a morte. Um grande barco parte abandonando As colunas de um cais ausente e branco. E o seu rosto busca-se emergindo Do corpo sem cabeça da cidade. Um grande barco desligado parte Esculpindo de frente o vento norte. Perfeito azul do mar, perfeita a morte Formas claras e nítidas de espanto.

facebooktwittergoogle+

Musa

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui me sentei quieta Com as mãos sobre os joelhos Quieta muda secreta Passiva como os espelhos Musa ensina-me o canto Imanente e latente Eu quero ouvir devagar O teu súbito falar Que me foge de repente.

facebooktwittergoogle+
sms

Os Poetas

Sophia de Mello Breyner Andresen

Solitários pilares dos céus pesados, Poetas nus em sangue, ó destroçados Anunciadores do mundo Que a presença das coisas devastou. Gesto de forma em forma vagabundo Que nunca num destino se acalmou.

facebooktwittergoogle+

Os cabelos

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os cabelos embora o vento passe Já não se agitam leves. O seu sangue, Gelando, já não tinge a sua face. Os olhos param sob a fonte aflita. Já nada nela vive nem se agita, Os seus pés já não podem formar passos, Lentamente as entranhas endurecem E até os gestos gelam nos seus braços. Mas os olhos de pedra não esquecem. Subindo do seu corpo arrefecido, Lágrimas lentas rolam pela face, Lentas rolam, embora o tempo passe.

facebooktwittergoogle+

Senhor

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhor se da tua pura justiça Nascem os monstros que em minha roda eu vejo É porque alguém te venceu ou desviou Em não sei que penumbra os teus caminhos Foram talvez os anjos revoltados. Muito tempo antes de eu ter vindo Já se tinha a tua obra dividido E em vão eu busco a tua face antiga És sempre um deus que nunca tem um rosto Por muito que eu te chame e te persiga.

facebooktwittergoogle+

Soneto à maneira de Camões

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esperança e desespero de alimento Me servem neste dia em que te espero E já não sei se quero ou se não quero Tão longe de razões é meu tormento. Mas como usar amor de entendimento? Daquilo que te peço desespero Ainda que mo dês - pois o que eu quero Ninguém o dá senão por um momento. Mas como és belo, amor, de não durares, De ser tão breve e fundo o teu engano, E de eu te possuir sem tu te dares. Amor perfeito dado a um ser humano: Também morre o florir de mil pomares E se quebram as ondas no oceano.

facebooktwittergoogle+
sms

As Rosas

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando à noite desfolho e trinco as rosas É como se prendesse entre os meus dentes Todo o luar das noites transparentes, Todo o fulgor das tardes luminosas, O vento bailador das Primaveras, A doçura amarga dos poentes, E a exaltação de todas as esperas.

facebooktwittergoogle+

Lusitânia

Sophia de Mello Breyner Andresen

pinterest

Os que avançam de frente para o mar E nele enterram como uma aguda faca A proa negra dos seus barcos Vivem de pouco pão e de luar.

facebooktwittergoogle+

Bebido o Luar

Sophia de Mello Breyner Andresen

Bebido o luar, ébrios de horizontes, Julgamos que viver era abraçar O rumor dos pinhais, o azul dos montes E todos os jardins verdes do mar. Mas solitários somos e passamos, Não são nossos os frutos nem as flores, O céu e o mar apagam-se exteriores E tornam-se os fantasmas que sonhamos. Por que jardins que nós não colheremos, Límpidos nas auroras a nascer, Por que o céu e o mar se não seremos Nunca os deuses capazes de os viver.

facebooktwittergoogle+

Tapas os caminhos

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tapas os caminhos que vão dar a casa Cobres os vidros das janelas Recolhes os cães para a cozinha Soltas os lobos que saltam as cancelas Pões guardas atentos espiando no jardim Madrastas nas histórias inventadas Anjos do mal voando sem ter fim Destróis todas as pistas que nos salvam Depois secas a água e deitas fora o pão Tiras a esperança Rejeitas a matriz E quando já só restam os sinais Convocas devagar os vendavais Se tanto me dói que as coisas passem É porque cada instante em mim foi vivo Na busca de um bem definitivo Em que as coisas de Amor se eternizassem.

facebooktwittergoogle+
sms

Cantata de paz

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar Vemos, ouvimos e lemos Relatórios da fome O caminho da injustiça A linguagem do terror A bomba de Hiroshima Vergonha de nós todos Reduziu a cinzas A carne das crianças DÁfrica e Vietname Sobe a lamentação Dos povos destruídos Dos povos destroçados Nada pode apagar O concerto dos gritos O nosso tempo é Pecado organizado.

facebooktwittergoogle+

Data

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tempo de solidão e de incerteza Tempo de medo e tempo de traição Tempo de injustiça e de vileza Tempo de negação Tempo de covardia e tempo de ira Tempo de mascarada e de mentira Tempo de escravidão Tempo dos coniventes sem cadastro Tempo de silêncio e de mordaça Tempo onde o sangue não tem rasto Tempo da ameaça.

facebooktwittergoogle+

Poesia

Sophia de Mello Breyner Andresen

Se todo o ser ao vento abandonamos E sem medo nem dó nos destruímos, Se morremos em tudo o que sentimos E podemos cantar, é porque estamos Nus em sangue, embalando a própria dor Em frente às madrugadas do amor. Quando a manhã brilhar refloriremos E a alma possuirá esse esplendor Prometido nas formas que perdemos. Aqui, deposta enfim a minha imagem, Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem. No interior das coisas canto nua. Aqui livre sou eu — eco da lua E dos jardins, os gestos recebidos E o tumulto dos gestos pressentidos Aqui sou eu em tudo quanto amei. Não pelo meu ser que só atravessei, Não pelo meu rumor que só perdi, Não pelos incertos atos que vivi, Mas por tudo de quanto ressoei E em cujo amor de amor me eternizei.

facebooktwittergoogle+

A pequena praça

Sophia de Mello Breyner Andresen

A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente Eu agarrava-me à praça porque tu amavas A humanidade humilde e nostálgica dos pequenas lojas Onde os caixeiros dobram e desdobram fitos e fazendas Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer E a vida toda deixava ali de ser a minha Eu procurava sorrir como tu sorrias Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco E à mulher sem pernas que vendia violetas Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti Eu acendia velas em todos os altares Das igrejas que ficam no canto desta praça Pois mal abri os olhos e vi foi para ler A vocação do eterno escrita no teu rosto Eu convocava as ruas os lugares as gentes Que foram as testemunhas do teu rosto Para que eles te chamassem para que eles desfizessem O tecido que a morte entrelaçava em ti.

facebooktwittergoogle+
sms

Mar

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mar, metade da minha alma é feita de maresia Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, Que há no vasto clamor da maré cheia, Que nunca nenhum bem me satisfez. E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia Mais fortes se levantam outra vez, Que após cada queda caminho para a vida, Por uma nova ilusão entontecida. E se vou dizendo aos astros o meu mal É porque também tu revoltado e teatral Fazes soar a tua dor pelas alturas. E se antes de tudo odeio e fujo O que é impuro, profano e sujo, É só porque as tuas ondas são puras.

facebooktwittergoogle+

Rosto

Sophia de Mello Breyner Andresen

Rosto nu na luz direta. Rosto suspenso, despido e permeável, Osmose lenta. Boca entreaberta como se bebesse, Cabeça atenta. Rosto desfeito, Rosto sem recusa onde nada se defende, Rosto que se dá na duvida do pedido, Rosto que as vozes atravessam. Rosto derivando lentamente, Pressentindo que os laranjais segredam, Rosto abandonado e transparente Que as negras noites de amor em si recebem Longos raios de frio correm sobre o mar Em silêncio ergueram-se as paisagens E eu toco a solidão como uma pedra. Rosto perdido Que amargos ventos de secura em si sepultam E que as ondas do mar puríssimas lamentam.

facebooktwittergoogle+

Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim de impossessão, Transbordante de imagens mas informe, Em ti se dissolveu o mundo enorme, Carregado de amor e solidão. A verdura das arvores ardia, O vermelho das rosas transbordava Alucinado cada ser subia Num tumulto em que tudo germinava. A luz trazia em si a agitação De paraísos, deuses e de infernos, E os instantes em ti eram eternos De possibilidades e suspensão. Mas cada gesto em ti se quebrou, denso Dum gesto mais profundo em si contido, Pois trazias em ti sempre suspenso Outro jardim possível e perdido.

facebooktwittergoogle+