Poemas de Paulo Leminski
Bem no fundo
twitter facebook orkutNo fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela -- silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás nã há nada, e nada mais mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas.
É tudo o que sinto
twitter facebook orkutInverno É tudo o que sinto Viver É sucinto.
Rio do mistério
twitter facebook orkutRio do mistério que seria de mim se me levassem a sério?
Matéria é mentira
twitter facebook orkutEssa idéia ninguém me tira matéria é mentira.
Esta vida é uma viagem
twitter facebook orkutEsta vida é uma viagem pena eu estar só de passagem.
Amei em cheio
twitter facebook orkutAmei em cheio meio amei-o meio não amei-o.
Saudosa Amnésia
twitter facebook orkutMemória é coisa recente. Até ontem, quem lembrava? A coisa veio antes, ou, antes, foi a palavra? Ao perder a lembrança. grande coisa não se perde. Nuvens, são sempre brancas. O mar? Continua verde.
Perto do osso a carne é mais gostosa
twitter facebook orkutSossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos a fora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa.
Amor Bastante
twitter facebook orkutQuando eu vi você tive uma idéia brilhante foi como se eu olhasse de dentro de um diamante e meu olho ganhasse mil faces num só instante basta um instante e você tem amor bastante.
O Hóspede Despercebido
twitter facebook orkutDeixei alguém nesta sala que muito se distinguia de alguém que ninguém se chamava, quando eu desaparecia. Comigo se assemelhava, mas só na superfície. Bem lá no fundo, eu, palavra, não passava de um pastiche. Uns restos, uns traços, um dia, meus tios, minhas mães e meus pais me chamarem de volta pra dentro, eu ainda não volte jamais. Mas ali, logo ali, nesse espaço, lá se vai, exemplo de mim, algo, alguém, mil pedaços, meio início, meio a meio, sem fim.
Marginal é quem escreve à margem
twitter facebook orkutMarginal é quem escreve à margem, deixando branca a página para que a paisagem passe e deixe tudo claro à sua passagem. Marginal, escrever na entrelinha, sem nunca saber direito quem veio primeiro, o ovo ou a galinha.
Casa com cachorro brabo
twitter facebook orkutCasa com cachorro brabo meu anjo da guarda abana o rabo.
Um dia vai ser
twitter facebook orkutPelos caminhos que ando um dia vai ser só não sei quando.
Pergunte ao sapo
twitter facebook orkutNoite alta lua baixa pergunte ao sapo o que ele coaxa.
Se
twitter facebook orkutSe nem for terra se trans for mar.
Na minha a tua ferida
twitter facebook orkutEssa é a vida que eu quero, querida encostar na minha a tua ferida.
Não fosse isso
twitter facebook orkutNão fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase.
Coração PRA CIMA
twitter facebook orkutCoração PRA CIMA escrito embaixo FRÁGIL.
Quem for louco que volte
twitter facebook orkutVida e morte amor e dúvida dor e sorte quem for louco que volte.
Um bom poema leva anos
twitter facebook orkutUm bom poema leva anos cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra, nove namorando a vizinha, sete levando porrada, quatro andando sozinho, três mudando de cidade, dez trocando de assunto, uma eternidade, eu e você, caminhando junto.
Nem fale em amor / que amor é isto
twitter facebook orkutVocê está tão longe que às vezes penso que nem existo. Nem fale em amor que amor é isto.
Amar é um elo
twitter facebook orkutAmar é um elo entre o azul e o amarelo.
Por um lindésimo de segundo
twitter facebook orkutTudo em mim anda a mil tudo assim tudo por um fio tudo feito tudo estivesse no cio tudo pisando macio tudo psiu tudo em minha volta anda às tontas como se as coisas fossem todas afinal de contas.
Três Metades
twitter facebook orkutMeio dia, um dia e meio, meio dia, meio noite, metade deste poema não sai na fotografia, metade, metade foi-se. Mas eis que a terça metade, aquela que é menos dose de matemática verdade do que soco, tiro, ou coice, vai e vem como coisa de ou, de nem, ou de quase. Como se a gente tivesse metades que não combinam, três partes, destempestades, três vezes ou vezes três, como se quase, existindo, só nos faltasse o talvez.
