Mensagens Com Amor Menu Search Close Angle Birthday Cake Asterisk Spotify Play PPS Book Download Heart Share Whatsapp Facebook Twitter Pinterest Instagram YouTube Telegram Copy Up Check

Siga-nos

Botequim em Prosa

Bares, botecos e botequins são palco de grandes debates sobre a natureza humana, como bem sabem os seus frequentadores. Por isso, muitos escritores tem algo a dizer sobre esse assunto, tão a cara do Brasil! Veja trechos de livros, crônicas e outros falando sobre essa paixão nacional.

continue lendo
Compartilhar

Paixão pelo botequim

Botecagem

Gostamos de beber, gostamos de botecos, de bares, de cerveja de garrafa, de petiscos, de beber até cair e gostamos até da sarjeta. E gostamos de escrever sobre tudo isso
Nossa ideia não é fazer apologia a bebida, gostamos mesmo é da mesa do bar, da verdadeira rede social. As conversas criadas em torno dessas singelas mesas e as peculiaridades que vivenciamos no bares criaram uma paixão.

Bar Ruim

Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando frequentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.
[...]
Os donos dos bares ruins que a gente frequenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Confissões

Luis Fernando Veríssimo

Eram quatro. Reuniam-se todos os sábados para beber, almoçar, beber, conversar e beber. Amigos, como se diz, de longa data. Um deles uma vez calculou que a data mais longa que existia, sílaba por sílaba, era vinte e oito de fevereiro de mil quatrocentos e alguma coisa. Era este o tipo de conversa que ocupava o sábado dos quatro. Semana após semana, ano após ano.
Mas ultimamente a conversa tinha começado a ficar séria. Quanto mais eles bebiam, mais séria e pessoal ficava a conversa. No fim do dia os quatro se faziam confidências antes inimagináveis. E os insultos que antes trocavam por amizade, já que brasileiro só xinga a mãe do pior inimigo ou do melhor amigo, agora eram para valer. Acusavam-se mutuamente de tudo, buscavam mágoas enterradas há anos e exigiam reparação. Os ressentimentos se empilhavam sobre a mesa como os pratos vazios e eles só não iam à agressão física porque ninguém tinha condição de acertar ninguém. Chegavam ao fim do sábado tão bêbados que no dia seguinte nenhum se lembrava do que tinha dito na noite anterior, muito menos o que tinha ouvido. Quando se reuniam no sábado seguinte, sabiam que tinham razões para se odiarem, ou para não se olharem mais nos olhos, só não se lembravam quais eram. O máximo que conseguiam era resgatar trechos da conversa, fragmentos com os quais tentavam reconstituir a orgia de revelações de uma semana antes. Todos os sábados tinham uma epifania sentimental que esqueciam no domingo.
[...]
Então, fizeram o seguinte. Convocaram o Alcides para ajuda-los.
Era o garçom que os servia aos sábados. Na verdade, seu nome não era Alcides, mas como o primeiro garçom que os servira no lugar se chamava Alcides, todos os outros herdaram o nome. Como o nome César dado a todos os imperadores de Roma depois de César.
- Alcides!
O plano era o Alcides ligar o gravador que deixariam sobre a mesa, quando notasse que eles tinham entrado na fase confessional. O Alcides fez o combinado, e teve o cuidado de guardar o gravador até a outra reunião. No sábado seguinte, antes mesmo do primeiro aperitivo, os quatro ligaram o gravador para ouvir a fita.
Não se entendia nada. Todos falavam ao mesmo tempo. Até que uma voz se destacou, silenciando as outras com sua veemência.
- Era eu! Era eu!
- O quê?
- Me deixem contar! Eu quero contar!
- Conta.
- Naquela noite! Era eu!
- O que, pô?
- No quarto. Com a Nonô. Era eu! A história do assaltante foi invenção. Eu e a Nonô...
Foi o marido da Nonô que apertou o botão, interrompendo a confissão. Foi o marido da Nonô que chamou “Alcides!” e sugeriu que esquecessem o gravador e começassem os trabalhos de sábado. Foi o marido da Nonô que especificou, depois de pedir uma caipirinha sem muito açúcar:
- E as bolinhas de queijo.
Querendo dizer que a vida é muito curta.

Confronto

Antonio Prata

Entre três e quatro horas, são trocadas vinte e seis mensagens com sugestões de bares. A facção que apoia a Vila Olímpia, contudo, entra em confronto com os frequentadores da Vila Madalena. É quando “ju.pimentel” se lança “contra tudo isso que está aí” e sugere “um boteco de verdade”, no Tatuapé.

Bar tranquilo

Raymond Chandler

Gosto dos bares assim que eles abrem para a noite. Quando o ar lá dentro ainda está fresco e limpo, tudo está reluzente e o barman está dando uma última olhada no espelho para ver se a gravata está em ordem e o cabelo, penteado. Gosto das garrafas arrumadas atrás do balcão, dos lindos copos brilhando e da expectativa. Gosto de observar o homem preparar o primeiro da noite, depositá-lo sobre um porta-copos e colocar um pequeno guardanapo dobrado ao lado. Gosto de saboreá-lo lentamente. O primeiro drinque tranquilo da noite num bar tranquilo – isso é maravilhoso.

Conversa de Bar

Luis Fernando Veríssimo

A conversa já passara por todas as etapas por que normalmente passa uma conversa de bar. Começara choca, preguiçosa. O mais importante, no princípio, são os primeiros chopes. A primeira etapa vai até o terceiro chope.
Do terceiro ao quarto chope, inclusive, contam-se anedotas. Quase todos já conhecem as anedotas, mas todos riem muito. A anedota é só pretexto para rir. A mesa está ficando animada, isso é o que importa. São cinco amigos.
Eu disse que eram cinco à mesa? Pois eram cinco à mesa. Dois casados, dois solteiros e um com a mulher na praia - quer dizer, nem uma coisa nem outra. E entram na terceira etapa.
Durante o quinto e o sexto chope, discutem futebol. O que nos vai sair desse tal de Minelli? Olha, estou gostando do jeito do cara. E digo mais, o Grêmio não aguenta o roldão nesta fase do campeonato. Quer apostar? Não aguenta. Porque isto e aquilo, que venha outra rodada. E - escuta, ó chapa - pode vir também outro sanduíche aberto e mais uns queijinhos.
O sétimo chope inaugura a etapa das graves ponderações. Chega a Crise e senta na mesa. O negócio não está fácil, minha gente. Vocês viram a história dos foguetes? Na Europa, anda terrorista com foguete dentro da mala. Em plena rua! O nego entra num hotel, pede um quarto, sobe, abre a mala, vai até a janela e derruba um avião. Derruba um avião assim como quem cospe na calçada!
São homens feitos, homens de sucesso, amigos há muitos anos. Nenhum melhor do que o outro. A etapa das graves ponderações deságua junto com o nono chope, na etapa confidencial. Pois eu ouvi dizer que quem está por trás de tudo... Agora todos gritam, as confidências reverberam pelo bar. Os cinco estão muito animados.
Um deles ameaça ir embora, mas é retido à força. Outra rodada! Hoje ninguém vai pra casa. Começa a etapa inteligente. Todos dizem frases definitivas quem nenhum ouve, pois cada um grita a sua ao mesmo tempo. Doze chopes. Treze. Começa uma discussão, ninguém sabe muito bem se sobre palitos ou petróleo. A discussão termina quando um deles salta da cadeira, dá um murro na mesa e berra: "E digo mais!" Faz-se silêncio. O quê? O quê? "Eu vou fazer xixi..."
Com quinze chopes começa a fase nostalgia. Reminiscências, auto reprimendas, os podres na mesa. As grandes revelações.

Balada vs. Boteco

Rafael Castilho

O cardápio dos botecos está repleto de comidinhas saborosas, cervejas de garrafa, chopp tirado na hora e cachaças de todos os tipos.
As baladas servem coquetéis espalhafatosos, drinques sofisticados e para estimular todas as compulsões vendem os energéticos, também com suas marcas em inglês.
No boteco, caso você beba demais, o dono te oferece um ombro amigo, te carrega pelo braço e te coloca dentro do taxi.
Na balada, se você ultrapassar os drinques o segurança também te carrega pelo braço, te leva até a porta, chuta a sua bunda e te atira na sarjeta.
No boteco as pessoas se tornam subitamente sinceras. Abrem o jogo e se expõem até demais. Falam de suas vitorias, mas também contam suas derrotas. Confessam seus casos, mas também desabafam sobre seus grandes cornos.
Na balada todos são bonitos, bem sucedidos, receberam promoção no trabalho e estão extravasando felicidade. Querem a todo custo escapar dos amores asfixiantes.
No bar, a barriguinha é um acessório dos mais interessantes. Sinal de simpatia e garantia de boas historias.
Na balada a forma física é importante. Você não pode usar a camiseta que ganhou de brinde no posto de gasolina. Você deve parecer atraente.
O boteco - com nome em português - é o lugar das grandes verdades. Inclusive as mais devastadoras. Cenário das grandes revelações.
A balada - com nome gringo - é o espaço das fantasias. Onde se contam as grandes mentiras, inclusive aquelas mais sinceras. Na balada as pessoas podem projetar a imagem que gostariam para si mesmos. Uma idealização sobre a própria realidade.
Alguns podem imaginar que este é um discurso contra a balada (e a favor dos botecos), mas não é nada disso.
Todo mundo precisa de um pouco de fantasia. Usar as diferentes máscaras guardadas na gaveta das roupas íntimas.
Porque nas vezes em que falamos as "grandes verdades", nem sempre estamos sendo sinceros.
Também, certas vezes em que se contam mentiras, estamos tentando dizer (mesmo sem querer) grandes verdades cruas.
Acho que todo mundo tem o melhor e o pior dentro de si. O bem e o mal concorrem na nossa cabeça.
Balada é bom. São tão lindas certas fantasias noturnas.
Mas, cá entre nós, nada pode superar um bom papo de boteco.

 

Colecionando botecos

Luis Fernando Veríssimo

Tinha uma mania: colecionava botecos. Não os frequentava, apenas Era um estudioso. Gostava de descobrir botecos e recomendar para os amigos. Ultimamente, vinha se especializando — um refinamento da sua paixão — no que chamava de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar.

Definições

Andre Comber

Nunca acho muito seguir discorrendo sobre o tema botequins e botecos, ainda mais porque vivo recebendo diferentes comentários do que se trataria, enfim, um boteco. Alguns até mal-educados. Isso é um exemplo de como este campo suscita paixões como no futebol. Faz parte da própria compreensão do espírito destas instituições brasileiras e, em maior grau, cariocas.
Eu já fui mais radical no sentido de cercear meu campo de visão sobre um botequim e um boteco. Hoje vejo que o radicalismo só nos leva a cegueira e é impossível definir claramente o que é um boteco ou um botequim. Estes tipos de estabelecimento, por si só, sofreram uma enorme evolução ao longo do século XX, e seguem sofrendo no século XXI. Portanto, qualquer tentativa de estabelecer parâmetros teria de levar em conta certo período de tempo, ou mesmo determinada região da cidade do Rio de Janeiro.

Tradição carioca

Ricardo Macieira

Povo alegre e descontraído, o carioca é tradicionalmente boêmio. Há de se reconhecer, aliás, que essa boemia confere à cidade do Rio de Janeiro um charme especial e uma intensidade ímpar na vida noturna. Democraticamente, os bares congregam intelectuais, músicos, artistas, literatos, assim como jovens, donas de casa conservadores e até mulheres e homens de vida fácil, pessoas, enfim, de diversas origens sociais. Essa é uma das múltiplas fazes desse espaço quase mítico, o botequim carioca. Ele não escolhe ou discrimina seus frequentadores, ao contrário, unifica-os em um universo feito de pluralidade e, naturalmente, de um bom chope gelado e muita conversa fiada.
Aliás, cabe mencionar que o botequim tem, por assim dizer, uma função social: descontrair o espírito e fazer aflorar as identidades no intuito de favorecer a conversa. Os assuntos surgem naturalmente vai-se falando de tudo um pouco. Política, futebol, vida alheia, o melhor chope da cidade, tudo é debatido. Isso sem esquecer que o bom papo de botequim é livre de censura, cobranças e pudores. O botequim funciona quase como um espaço para terapia de grupo, em que todos aprendem com as experiências alheias.
[...]
O botequim carioca é, portanto, o lugar da simplicidade por excelência e, se considerarmos que “a maneira mais simples de se abordar um assunto é sempre a melhor”, compreenderemos a razão pela qual nossos botecos gozam de tanto prestígio, fervilhando de domingo a domingo.

fechar