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Retratos do Cotidiano

Além de colunista do Estadão, Ruth Manus é advogada e professora universitária. Seus textos são publicados na seção "Retratos e relatos do cotidiano", abordando temas divertidos e rotineiros.

Como assim você não é magra?

Ruth Manus

Barriga chapada, bunda dura, seios tonificados, bye bye celulite. Nunca te perguntaram se você estava a fim de entrar nessa onda. Nunca te deram tempo para pensar se você realmente quer torrar 5kg em 3 semanas. VOCÊ QUER.
E se vier com conversinha de que está bem assim, você é uma FRACA. Uma DERROTADA. Uma COVARDE. Uma ACOMODADA. Não interessa se seus exames de sangue estão perfeitos. Colesterol, triglicérides, glicemia. Não interessa se seu IMC está dentro do saudável.
Nada interessa se você não for MAGRA.
Quanto você pesa? Antes que você responda: É MUITO. Mas eu sou alta. É MUITO. Mas é só 67. É MUITO. É só 54. É MUITO. É só 46. É MUITO. A não ser que seja tudo massa magra. Não é? Lamentável.
O que tem na sua geladeira? Tem glúten? Tem lactose? Tá explicado. É por isso. Por isso que você está assim, esse LIXO. Depois reclama. Você não é intolerante a glúten? Nem a lactose? Claro que é. Hoje em dia o saudável é ser.
O que é isso na sua bolsa??? Um sonho de valsa??? Como você não se envergonha? Terminou um relacionamento ontem? Vá correr, sua FRACA! Libera endorfina! Não tem ânimo? DERROTADA. Não tem tempo? ACOMODADA.
Todos os mecanismos estão à sua disposição. Blogs, sites, livros, dedo pra enfiar na garganta. E você aí, comendo PÃO. Pão, dá para acreditar nisso? IGNORÂNCIA. DISPLICÊNCIA. E você aí, tomando uma cervejinha em pleno sábado de sol! FRACA. Sábado é dia de bike, de corrida, de queimar as calorias da batata doce que você comeu durante a semana.
Calça tamanho 40. Você tem noção disso? Você está usando QUARENTA. É uma ilusão achar que você pode ser feliz assim. Não sei como você tem coragem de entrar numa loja e pedir isso.
Inacreditável que uma mulher como você jogue tanto potencial no lixo.
Você foi promovida? Você recebeu seu diploma? Você é uma mãe incrível? Você vive de bom humor? Você lê um livro por semana? Você escreve bem? Você é excelente em cálculo? Grande bosta. Você não é MAGRA. Suas coxas são flácidas. Você tem estrias.
Entenda, querida. As prioridades mudaram. É um novo mundo. Só não é MAGRA quem não quer. E VOCÊ QUER. Ouviu bem? VOCÊ QUER.

Ainda precisamos fazer tanta coisa juntos

Ruth Manus

Não é por causa de amarras, de juras, muito menos de cadeados. Não é porque eu precise acreditar que é eterno ou que a gente tenha que ser passado, presente e futuro incondicional. Não.
Eu quero você por muito tempo, mas não por esse lance de “pra sempre”. Isso não tem a minha cara, já li mais Bauman do que contos de fadas. Duração imposta por promessas de amor eterno não me soa como caminho feliz, mas como uma chegada obrigatória num lugar completamente sem sentido.
Quando penso na gente, o que eu quero é mais tempo. Horas que durem mais, noites que não acabem, manhãs que não sejam interrompidas pela hora do almoço, primaveras que demorem para virar verão, verão que não veja folhas antecipadas de outono.
Quero mais tempo porque ainda preciso fazer muita coisa com você.
Sim, a gente já caminhou bastante. Já correu para não perder o ônibus, para não perder o voo, para não se perder de vista. Já descobriu o restaurante da rua de trás, o brinquedo do kinder ovo, uma ou outra mentira, tudo bem. Já tomou uns porres, café da manhã na padaria, tomou coragem pra dizer tanta coisa.
Mas ainda falta… Falta muito. Falta tanto!
Ainda falta a gente achar uma árvore de pitanga bem carregada e competir quem cospe o caroço mais longe.
Também falta o pé de amora, pra manchar a sola do sapato e virar história.
Falta te mostrar aquele lugarzinho da minha infância que provavelmente você nem vai ligar muito, mas eu quero mostrar mesmo assim.
Falta estar passeando numa tarde quente e cair um pé d’água para a gente tomar banho de chuva enquanto um músico de rua toca Lenine debaixo de um toldo verde.
Falta pegar tatu bola pretinho de jardim e dar peteleco pra ficar redondo.
Falta a gente entender bastante de vinho (ou pelo menos conseguir fingir melhor que entende) e juntar dinheiro para desbravar vinícolas ensolaradas que nem nos filmes.
Falta você fazer aquela carne de porco que cozinha 14 horas que você sempre diz que vai fazer, mas no fim só sai ovo mexido.
Falta um monte de temporadas de um monte de séries.
Falta descer gramado sentado em caixa de papelão.
Falta a gente comprar o mesmo livro, ler na beira da piscina tomando um coquetel mais bonito do que gostoso e, no fim, discutir impressões não muito profundas sobre o enredo.
Falta você aceitar a ideia de que eu canto muito bem, você que ainda não soube ouvir com bastante atenção.
Falta o frango com molho de cerveja da minha avó.
Falta você me flagrar dormindo numa tarde de domingo, enquanto um último feixe de sol ilumina meu rosto e o vizinho de cima colocar Stevie Wonder para cantar e te fazer, em silêncio, encostado no batente da porta, me achar tão lovely, tão wonderful, tão precious.
Talvez ainda falte um juiz de paz, um bom marceneiro, um fiador, um obstetra, um empréstimo do banco. Não sei, esses últimos são hipóteses. Todo o resto é certeza. Principalmente o tatu bola e o feixe de sol.
Eu quero você por muito tempo, por um milhão de momentos, por dias e mais dias. Talvez isso seja menos que pra sempre. Ou talvez seja bem mais. Mas é a certeza que posso te dar: eu quero que você fique.
Vê se fica, tá?
Fica porque ainda falta muita coisa.

Quando eu percebi que era você

Ruth Manus

Percebi que era você quando comecei a abrir exceções
Quando quis abrir mão de tantas outras paixões
Quando quis te incluir nos meus próximos verões
Quando cansei de querer proteções, de tentar fazer distinções, de ter medo de projeções.
Percebi que era você quando perdi aquela vergonha
Quando ri com sua baba na minha fronha
Quando a rotina não me pareceu tão medonha
Quando as férias foram boas mesmo sem passagem para Bolonha, Borgonha, Fernando de Noronha
Percebi que era você quando passei a confiar no destino
Quando pude falar de problemas de intestino
Quando comemorei por você não ser leonino
Quando soube que te amaria de qualquer jeito: girondino ou jacobino e até mesmo argentino
Percebi que era você quando parei de me sentir paradoxal
Quando não achei mau o seu hálito matinal
Quando fiz piada sobre a situação do meu abdominal
Quando quis assistir com você: Germinal, Atividade Paranormal, Super Xuxa Contra o Baixo Astral
Percebi que era você quando parei de depender da sorte
Quando um dia me flagrei com medo da sua morte
Quando quis segurar juntos os nossos passaportes
Quando nos vi felizes ao som de Pavarotti, de Slipknot, nos refrões do Grupo Pixote
Percebi que era você quando a cama ficou grande demais
Quando vi meu passado ficando para trás
Quando pensei em fugir, mas fui incapaz
Quando não nos comparei com outros casais, quando percebi meu peito em paz e ainda assim, queria mais
Percebi que era você quando vi despertar o melhor de mim
Quando vi que o melhor possível já é assim
Quando pensei em nós e tinha cheiro de jasmim
Quando me dei conta de que quero cultivar nosso jardim, escrever os nossos nomes em mandarim e viver uma história que não tenha medo do fim.

Detox na vida

Ruth Manus

Passou o natal, passou o ano novo, passou o carnaval. The game is over e a vida real pede passagem. É nessa hora que a febre detox-vida-nova-entrar-nos-eixos vem com força ainda maior- se é que isso é possível.
Detox vem da ideia de desintoxicar, tirar do corpo tudo o que não lhe faz bem. Louvável, sem dúvida nenhuma. Mas o problema começa quando as pessoas resolvem achar que duas garrafas de suco verde são a milagrosa solução para melhorar suas vidas.
2015 tá aqui na nossa frente e de nada vai adiantar desintoxicar o corpo, se a vida e a alma estão povoadas de hábitos, pessoas, dias e caminhos tóxicos. Parasitas, comodismos, vícios, medos.
Gente tóxica é o que mais tem. Gente cinza, amarga, invejosa, gente que gosta de problema, que gosta de doença, que gosta de discórdia, gente que vive de aparência, gente rasa. E não tem jeito, temos que fugir mesmo, cortar, evitar ao máximo. Bom dia, boa tarde e até logo. Não nos deixemos contaminar.
Não adianta comer chia toda manhã se a gente odeia o emprego e já sai de casa com vontade de voltar. Não dá para achar que o corpo vai estar puro se você não acredita no que faz e passa mais de 40 horas da semana ruminando tarefas infelizes.
Não adianta beber 3 litros de água por dia quando se está num relacionamento que afundou. É cômodo, todos sabemos. Mas a vida é uma só e não dá para ver os dias, meses e anos passarem com migalhas de amor e sem vestígios de paixão.
Não adianta colocar linhaça nas receitas quando só se reclama da vida, dos outros, do país, do calor, da chuva, do trânsito. É um círculo vicioso, quanto mais a gente fala das coisas ruins, menos atenção a gente dá às coisas boas e a vida vai ficando ruim, ruim, ruim.
É ilusão achar que a mudança vem de fora para dentro. Que a felicidade e a saúde cabem em embalagens plásticas com códigos de barra. Produtos podem ser ótimos coadjuvantes nessa busca, mas a verdadeira mudança é só o protagonista quem faz.
E eu quero um 2015 detox.
Detox de dias iguais.
Detox de gente ruim.
Detox de maus hábitos.
Detox de inveja.
Detox de relações doentes.
Detox de obsessões.
Detox de pessimistas.
Detox de medo de mudar.
Detox de dias desperdiçados.
Detox de sentimentos pobres.
Detox de superficialidade.
Detox de vícios.
Detox de viver por viver.
E pra fazer detox na vida é preciso coragem. Coragem para mudar, para arriscar, para romper, para fechar ciclos que há muito tempo deveriam ter terminado. O ano oficialmente começou e a pergunta é: vai ter só suco verde ou vai ter detox na vida?

Um grande beijo para o recalque

Ruth Manus

Recalque.
Há quem diga que quem criou o conceito foi Valesca Popozuda. Outros atribuem a Sigmund Freud. Talvez seja Clarice Lispector, talvez seja Voltaire, talvez seja Tati Quebra Barraco.
Não vem ao caso.
O que sei é que o conceito moderno de recalque é simplesmente genial e indispensável. Porque tem dias que a gente simplesmente se cansa dessas pessoas de vida chata, cuja maior diversão é julgar a conduta alheia, observada de longe com olhinhos cinzentos.
Tem dias que a gente cansa do recalque com o beijo gay da novela. Com o beijo gay do amigo de infância. Com o beijo hétero da amiga que está piriguetando feliz da vida. Com o beijinho no ombro da musa.
Cansa do recalque de quem não tem culhões para fazer o que tem vontade e fica condenando a vida alheia. De quem tem uma vida quadrada e desinteressante, que culmina nessa tristeza de ter como passatempo favorito a censura da alegria dos outros.
Cansa daquela gente que não interage nas redes sociais, mas está lá, todo dia, amarguinha, julgando a foto da prima, o post do vizinho, os likes do ex namorado da madrasta do jardineiro do prédio. Um misto entre fantasma e fiscal de trânsito.
Cansa, simplesmente caaaaansa do recalque.
Cansa de quem não se joga no sambão, de quem não desce até o chão, mas faz questão de demonstrar reprovação.
Cansa de quem não fica suado, não se arrisca a ser engraçado, mas adora demonstrar o quanto está chocado.
Cansa de quem não usa descolorante, não suporta refrigerante e confunde ser insosso com ser elegante.
Cansa de quem não se posiciona em relação a nada, quem acha um horror a discussão política inflamada, mas adora falar que o país é uma palhaçada.
Cansa de quem não chora de rir, não larga tudo quando quer ir e leva uma vida que precisa de projeto para sorrir.
Cansa de quem não gosta do que você escreve, quem condena as palavras que você não mede, mas na hora do pedido de amizade: pede.
Cansa de quem é velho aos vinte, de quem não vira amigo do pedinte, e que vai ler o que você posta- e vai dar print.
Cansa de quem vive de aparência, de quem não tem resquícios de adolescência e se orgulha do seu nível de decência.
Cansa de quem não quer se expor, não se arrisca a morrer de amor, mas inveja, secretamente, toda essa falta de pudor.
Ai, sério, cansei.
Deixo apenas um grande beijo pro recalque, desejando que toda invejinha malvada se transforme em vontade de viver.
Vamos viver, recalcados!
Juntem-se a nós, vocês verão que a vida é bem melhor quando você investe na arte de sambar na cara da sociedade, ao invés de ficar na plateia analisando quem está fora do ritmo, quem está com as coxas flácidas e quem borrou a maquiagem.
Venham pra pista, recalcados!
Porque nós podemos ter mil e um defeitos, mas temos o tesouro de não ver ninguém como afronta ou concorrência. Vamos receber vocês muito bem. Vocês verão que a vida desrecalcada é uma verdadeira delícia.

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