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Poemas Sobre Liberdade

O que é ser livre? Ser livre é poder escolher o que quiser, é poder dizer sim e não. Sinta-se livre para compartilhar nossos poemas de liberdade!

O Último Negócio

Rabindranath Tagore

Certa manhã ia eu pelo caminho pedregoso, quando, de espada desembainhada, chegou o Rei no seu carro. Gritei: Vendo-me! O Rei tomou-me pela mão e disse: Sou poderoso, posso comprar-te. Mas de nada lhe serviu o seu poder e voltou sem mim no seu carro. As casas estavam fechadas ao sol do meio dia, e eu vagueava pelo beco tortuoso quando um velho com um saco de oiro às costas me saiu ao encontro. Hesitou um momento, e disse: Posso comprar-te. Uma a uma contou as suas moedas. Mas eu voltei-lhe as costas e fui-me embora. Anoitecia e a sebe do jardim estava toda florida. Uma gentil rapariga apareceu diante de mim, e disse: Compro-te com o meu sorriso. Mas o sorriso empalideceu e apagou-se nas suas lágrimas. E regressou outra vez à sombra, sozinha. O sol faiscava na areia e as ondas do mar quebravam-se caprichosamente. Um menino estava sentado na praia brincando com as conchas. Levantou a cabeça e, como se me conhecesse, disse: Posso comprar-te com nada. Desde que fiz este negócio a brincar, sou livre.

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Oração

Miguel Torga

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Liberdade, que estais no céu... Rezava o padre-nosso que sabia, A pedir-te, humildemente, O pio de cada dia. Mas a tua bondade omnipotente Nem me ouvia. Liberdade, que estais na terra... E a minha voz crescia De emoção. Mas um silêncio triste sepultava A fé que ressumava Da oração. Até que um dia, corajosamente, Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, Saborear, enfim, O pão da minha fome. Liberdade, que estais em mim, Santificado seja o vosso nome.

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De que Serve a Bondade

Bertold Brecht

De que serve a bondade Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos Aqueles para quem foram bondosos? De que serve a liberdade Quando os livres têm que viver entre os não-livres? De que serve a razão Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa? Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor; A faça supérflua! Em vez de serdes só livres, esforçai-vos Por criar uma situação que a todos liberte E também o amor da liberdade Faça supérfluo! Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos Um mau negócio!

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Liberdade

Fernando Pessoa

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Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. Sol doira Sem literatura O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como o tempo não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quanto há bruma, Esperar por D.Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. Mais que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...

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A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade

Fernando Echevarría

A solidão é sempre fundamento da liberdade. Mas também do espaço por onde se desenvolve o alargar do tempo à volta da atenção estrita do acto. Húmus, e alma, é a solidão. E vento, quando da imóvel solenidade clama o mudo susto do grito, ainda suspenso do nome que vai ser sua prisão pensada. A menos que esse nome seja estremecimento fruto de solidão compenetrada que, por dentro da sombra, nomeia o movimento de cada corpo entrando por sua luz sagrada.

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Evolução

Antero de Quental

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Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo tronco ou ramo na incógnita floresta... Onda, espumei, quebrando-me na aresta Do granito, antiquíssimo inimigo... Rugi, fera talvez, buscando abrigo Na caverna que ensombra urze e giesta; O, monstro primitivo, ergui a testa No limoso paúl, glauco pascigo... Hoje sou homem, e na sombra enorme Vejo, a meus pés, a escada multiforme, Que desce, em espirais, da imensidade... Interrogo o infinito e às vezes choro... Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro E aspiro unicamente à liberdade.

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Mors Liberatrix

Antero de Quental

(A Bulhão Pato) Na tua mão, sombrio cavaleiro, Cavaleiro vestido de armas pretas, Brilha uma espada feita de cometas, Que rasga a escuridão como um luzeiro. Caminhas no teu curso aventureiro, Todo involto na noite que projectas... Só o gládio de luz com fulvas betas Emerge do sinistro nevoeiro. Se esta espada que empunho é coruscante, (Responde o negro cavaleiro-andante) É porque esta é a espada da Verdade. Firo, mas salvo... Prostro e desbarato, Mas consolo... Subverto, mas resgato... E, sendo a Morte, sou a Liberdade.

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Quero dos Deuses só que me não Lembrem

Ricardo Reis

Quero dos deuses só que me não lembrem. Serei livre sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada. O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo, nos oprimem. A quem deuses concedem Nada, tem liberdade.

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Podemos Crer-nos Livres

Ricardo Reis

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Aqui, Neera, longe De homens e de cidades, Por ninguém nos tolher O passo, nem vedarem A nossa vista as casas, Podemos crer-nos livres. Bem sei, é flava, que inda Nos tolhe a vida o corpo, E não temos a mão Onde temos a alma; Bem sei que mesmo aqui Se nos gasta esta carne Que os deuses concederam Ao estado antes de Averno. Mas aqui não nos prendem Mais coisas do que a vida, Mãos alheias não tomam Do nosso braço, ou passos Humanos se atravessam Pelo nosso caminho. Não nos sentimos presos Senão com pensarmos nisso, Por isso não pensemos E deixemo-nos crer Na inteira liberdade Que é a ilusão que agora Nos torna iguais dos deuses.

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Vivo uma Vida que não Quero nem Amo

Ricardo Reis

Súbdito inútil de astros dominantes, Passageiros como eu, vivo uma vida Que não quero nem amo, Minha porque sou ela, No ergástulo de ser quem sou, contudo, De em mim pensar me livro, olhando no alto Os astros que dominam Submissos de os ver brilhar. Vastidão vã que finge de infinito Como se o infinito se pudesse ver! Dá-me ela a liberdade? Como, se ela a não tem?

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Quem nos Ama não Menos nos Limita

Ricardo Reis

Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afetos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses.

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