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Poemas de Elisa Lucinda

O poema do semelhante

Elisa Lucinda

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O Deus da parecença que nos costura em igualdade que nos papel-carboniza em sentimento que nos pluraliza que nos banaliza por baixo e por dentro, foi este Deus que deu destino aos meus versos, Foi Ele quem arrancou deles a roupa de indivíduo e deu-lhes outra de indivíduo ainda maior, embora mais justa. Me assusta e acalma ser portadora de várias almas de um só som comum eco ser reverberante espelho, semelhante ser a boca ser a dona da palavra sem dono de tanto dono que tem. Esse Deus sabe que alguém é apenas o singular da palavra multidão Eh mundão todo mundo beija todo mundo almeja todo mundo deseja todo mundo chora alguns por dentro alguns por fora alguém sempre chega alguém sempre demora. O Deus que cuida do não-desperdício dos poetas deu-me essa festa de similitude bateu-me no peito do meu amigo encostou-me a ele em atitude de verso beijo e umbigos, extirpou de mim o exclusivo: a solidão da bravura a solidão do medo a solidão da usura a solidão da coragem a solidão da bobagem a solidão da virtude a solidão da viagem a solidão do erro a solidão do sexo a solidão do zelo a solidão do nexo. O Deus soprador de carmas deu de eu ser parecida Aparecida santa puta criança deu de me fazer diferente pra que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente Esse Deus deu coletivo ao meu particular sem eu nem reclamar Foi Ele, o Deus da par-essência O Deus da essência par. Não fosse a inteligência da semelhança seria só o meu amor seria só a minha dor bobinha e sem bonança seria sozinha minha esperança.

Amanhecimento

Elisa Lucinda

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De tanta noite que dormi contigo no sono acordado dos amores de tudo que desembocamos em amanhecimento a aurora acabou por virar processo. Mesmo agora quando nossos poentes se acumulam quando nossos destinos se torturam no acaso ocaso das escolhas as ternas folhas roçam a dura parede. nossa sede se esconde atrás do tronco da árvore e geme muda de modo a só nós ouvirmos. Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos o pio de todas as asneiras todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha Para um dia partirem em revoada. Ainda que nos anoiteça tem manhã nessa invernada Violões, canções, invenções de alvorada... Ninguém repara, nossa noite está acostumada.

Reconstituição

Elisa Lucinda

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Tive de repente saudade da bebida que eu estava bebendo... tive saudade e tentei me lembrar que gosto faltava, qual era a bebida... Fui procurando entre copos e móveis e dei com sua boca. A saudade era dela A bebida era o beijo.

Escolha

Elisa Lucinda

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Eu te amo como um colibri resistente incansável beija-flor que sou batedora renitente de asas viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto. Pingas na minha boca umas gotas poucas do que nem é uma vacina. Eu uma mulher, uma ave, uma menina… Assim chacinas o meu tempo de eremita: quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias as que vestiram meus pés quando caminhei as areias. Eu te amo como quem esquece tudo diante de um beijo: as inúmeras horas desbeijadas os terríveis desabraços os dolorosos desencaixes que meu corpo sofreu longe do seu. Elejo sempre o encontro Ele é o ponto do crochê. Penélope invertida nada começo de novo nada desmancho nada volto Teço um novo tecido de amor eterno a cada olhar seu de afeto não ligo para nada que doeu. Só para o que deixou de doer tenho olhos. Cega do infortúnio pesco os peixes dos nossos encaixes pesco as gozadas as confissões de amor as palavras fundas de prazer as esculturas astecas que nos fixam na história dos dias Eu te amo. De todos os nossos montes fico com as encostas De todas as nossas indagações fico com as respostas De todas as nossas destilairias fico com as alegrias De todos os nossos natais fico com as bonecas De todos os nossos cardumes as moquecas.

A Esse Papo Indo-lente

Elisa Lucinda

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Quando me perguntam depois de "Ó que lindos olhos"... Esses olhos são seus?" Me sinto como se perguntassem se o sol é rei mesmo ou uma espécie de lâmpada de mil Me sinto constrangida como se tivesse sido possível a alguém alguma vez confundir lata de goiabada com fruta de pé. me sinto velha virada há milênios Aniversariada por várias civilizações e nada esqueci. Me sinto madura madeira escaldada pra lá destas idades do agora. Sou dos longínquos tempos de goiabeiras mangueiras, formigas cabeçudas tanajuras de umidade, baratas cascudas e canaviais nos quintais Sou ainda mais na magia do que havia nesses anais, sou do tempo em que era bom nascer com olhos de esmeralda e a artista a ser cumprimentada era a mãe-natureza pela proeza de olhos ser olhos e lente ser lente. Sou do tempo em que eu era toda realeza e com certeza não se compravam olhos em shoppings, meus deus. Sou do tempo em que meus olhos Só podiam ser meus.

Cor-respondência

Elisa Lucinda

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Remeta-me os dedos em vez de cartas de amor que nunca escreves que nunca recebo. Passeiam em mim estas tardes que parecem repetir o amor bem feito que você tinha mania de fazer comigo. Não sei amigo se era o seu jeito ou de propósito mas era bom, sempre bom e assanhava as tardes. Refaça o verso que mantinha sempre tesa a minha rima firme confirme o ardor dessas jorradas de versos que nos bolinaram os dois a dois. Pense em mim e me visite no correio de pombos onde a gente se confunde Repito: Se meta na minha vida outra vez meta Remeta.

Safena

Elisa Lucinda

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Sabe o que é um coração amar ao máximo de seu sangue? Bater até o auge de seu baticum? Não, você não sabe de jeito nenhum. Agora chega. Reforma no meu peito! Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas aproximem-se! Rolos, rolas, tinta, tijolo comecem a obra! Por favor, mestre de Horas Tempo, meu fiel carpinteiro comece você primeiro passando verniz nos móveis e vamos tudo de novo do novo começo. Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora apertem os cintos Adeus ao sinto muito do meu jeito Pitos ventres pernas aticem as velas que lá vou de novo na solteirice exposta ao mar da mulatice à honra das novas uniões Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas Protejam as beiras lustrem as superfícies aspirem os tapetes Vai começar o banquete de amar de novo Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões Façam todos suas inscrições. Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate O homem que hoje me amar Encontrará outro lá dentro. Pois que o mate.

Au Gratin

Elisa Lucinda

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Fumo um cigarro fino Como um palito O calor do Rio é ridículo Calor de chuva enrustida Calor do céu oprimido De inferno mar resolvido Que não sabe se queima esse cara Ou o assa ao ponto Um calor filho da puta Um calor de estufa E eu sem nem ser judia Sofro aos pouquinhos Sofro esse zé pagodinho Ardo nesse pecado que não cometi Nesse forno onde me meti Por uma apimentada dica De um nordestino Que me mostrou uma placa citada, tinhosa: "CIDADE MARAVILHOSA" Eu vim.

Incompreensão dos mistérios

Elisa Lucinda

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Saudades de minha mãe. Sua morte faz um ano e um fato Essa coisa fez eu brigar pela primeira vez com a natureza das coisas: que desperdício, que descuido que burrice de Deus! Não de ela perder a vida mas a vida de perdê-la. Olho pra ela e seu retrato. Nesse dia, Deus deu uma saidinha e o vice era fraco.

Late ilusão

Elisa Lucinda

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Em noite de lua cheia geme ao meu lado o meu cão acabado de chegar late ilusões ao meu ouvido e meu sentido diz que ele veio pra ficar Mas a vida passa e vira páginas da folhinha o que era cheia e domingo foi minguando em segundas e terças e meu homem, minha besta voltou novo e repetido como se fosse ficar até sexta três dias de ele chegando de madrugada Três dias de ele nadando na minha água Conversas de homem e mulher beijo na boca tirar a roupa novos latidos de ilusão no meu duvido meu homem partiu na derradeira manhã todo agradecido dos momentos de amor que uivou comigo eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela e ele na terra cantando latindo partindo uivando pra ela.