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Poemas de Flora Figueiredo

Para quem gosta de se identificar com aquilo que lê, prepare-se para viajar por sensações intensas e prazerosas. Cotidiano, amor, vida, fé, relacionamentos... Flora Figueiredo traz tudo isso. Confira!

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Quem é Flora Figueiredo

Flora Figueiredo é poeta, cronista e consagrada pelo sucesso dos livros Florescência (1987), Calça de verão (1989), Amor a céu aberto (1992) e um dos mais recentes Chão de vento (2011). Com poemas que variam entre amor, cotidiano, relacionamentos, crenças, natureza... Flora faz um misto de pensamentos e sentimentos que nos permite viajar entre sensações intensas e tranquilas entre um verso e outro.

Origami

Flora Figueiredo

Dobra que dobra,
redobra
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada
acaba se tornando borboleta.

Retrospectiva

Flora Figueiredo

Porque a vida é feita de proibições,
eu não compus todas as canções,
não percebi a brisa suspirar,
eu esqueci cantigas de ninar,
dei chances demais à voz dos credos,
não rompi de vez todos os medos,
roubei do tempo um tanto de carinho,
não vi a flor amar o passarinho,
perdi o trem na curva do vertente
e não deixei o mel melar completamente.

Porque a vida é feita de proibições,
larguei o fio, soltaram-se os balões
deixei que o pião revirasse sozinho,
mandei que o zangão se zangasse baixinho,
desprezei a bruma que baixou o véu,
permiti à palavra dormir no papel,
evitei o desvio que atravessa a estrada,
não quis o desafio da ronda embriagada,
não li o poema do poeta maldito,
e não tive o dilema do beijo infinito.

Porque ainda há tempo para o encantamento,
quebre-se o vidro do sermão absoluto,
rompa-se a teia, reveja-se o estatuto,
que a primavera quer amar o chão de vento.

Momento mole de uma tarde de abril

Flora Figueiredo

Cadeira do lado de fora,
alpargatas.
Óculos embaçados de limpeza mal feita,
que, afinal,
feriado nacional não foi feito para esforço.
Nuvem com forma de baleia,
sol mortiço.
Essa tarde sem compromisso
ainda vai acabar em lua cheia.

Tem mosquito atormentando!
Não sabe que, de vez em quando,
a gente tem direito de estar só?
E por que será que a neta
tem que andar sempre
com a roda frouxa na bicicleta?
Tomara que não solte,
senão vai ter choradeira.
Semana que vem se conserta.
Talvez na segunda ou terça-feira.


Cheiro de café fresco,
vindo da cozinha.
Tem coisa melhor que manteiga derretida
em pão quentinho?
Às vezes Deus acerta tanto
que a gente nem sabe como agradecer.
Por isso é que não se mata passarinho.
E tem goiaba com queijo,
melado com farinha,
pinga com limão.
O resto, a vida ajeita.
Não fosse a obrigação,
a Criação teria saído bem perfeita.

Anu branco dá azar.
Passa, danado.
Vai assombrar o telhado do vizinho,
que hoje é feriado e não quero amolação.
Pai nosso só amanhã.
Nem banho, nem barba feita,
nem ouvido pra conversa de mulher.
Um futebolzinho na televisão,
um noticiário qualquer,
até o sono chegar, dando coceira na nuca,
coisa mais maluca, sem pé nem cabeça.
Antes que o corpo amoleça,
um cigarro e mais um trago,
que desse mundo nada se leva
e essa vida não vale um vintém.
Viva Joaquim José de Silva Xavier!
Até o ano que vem.

Flutuações

Flora Figueiredo

O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.

 

Gangorra

Flora Figueiredo

Eu namoro à noite,
você apaga a lua;

eu perfumo o lençol,
você dorme na rua;

eu aprumo a estrela,
você a entorta;

eu colho a maça,
você traz a lagarta;

eu rego o ipê,
você parte o galho;

eu tempero com sal,
você talha o molho;

eu lavo o cristal,
você trinca a ponta;

eu adoço com mel,
você passa do ponto

eu beijo na boca,
você faz de conta.

Oração da manhã

Flora Figueiredo

Bom dia, Pai.
Vamos tomar juntos o café da manhã?
Temos pendentes tantos assuntos!
(O pão está fresquinho,
o café bem quente).
Ainda que só um minutinho,
nós precisamos conversar:
o mundo desandou de tal jeito,
que nada mais parece ter efeito.
Nem ciência, nem teoria,
nem fórmula, nem maestria
conseguem colaborar.
Cada qual briga pelo seu bocado
sem nenhuma decência, sem qualquer restrição.
Perdeu-se nas cinzas o espírito cristão.
Por isso, a minha idéia
(por favor, passe a geléia)
de recorrer a uma ajuda;
sem você, a situação não muda.
A ambição vem engolindo a Terra;
a sociedade, cada vez mais dissoluta.
E fique atento,
pois andam procurando uma fé substituta.
Os governantes estão cegos;
que tal devolver-lhes a visão?
Carregam pregos nas mãos,
crucificam o povo.
Não quero que Você morra de novo!
Meus Jesus, multiplique o pão.
Perdoe esse bate-papo,
(à sua frente tem um guardanapo)
é que estou aflita!
Que bom receber Sua visita logo de manhã
Devo Lhe contar um segredo:
quero sair de casa, mas tenho medo,
preciso segurar a Sua mão.
Ainda falta agradecer tanta graça!
O girassol que nasce na calçada,
o rosa-amarelo da alvorada,
o pedaço de céu que pinga na vidraça,
na gota de orvalho que cai.
Daqui pra frente, eu sigo meu caminho
e Lhe entrego todo meu afeto.
Você é mesmo meu amigo predileto!
Bom dia, Pai.

Insônia

Flora Figueiredo

Silêncio,
Madrugada.
Rua vazia.
Uma lua branca de linho
estendida no escuro,
sobre o nada.
Num momento insone,
conversam confidentes
Presente, Passado, Futuro.
Um pensamento corta o espaço
versejando a esmo.
Escuto passos:
é meu coração abrindo a porta de mim mesmo.

Meias de jornal

Flora Figueiredo

Pés no chão, endurecidos de tão frios,
Nus, como o verde da palmeira
que lava-enxuga, lava-enxuga,
Para a crueza da noite, meias estampadas:
são folhas do jornal de sexta-feira.
Uma luz de alumínio sobre a manchete:
A CPI DA CORRUPÇÃO NÃO DEU EM NADA.
... no corrimão da madrugada, dorme um pivete.

Lição de casa

Flora Figueiredo

Você tampa a panela,
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.

Vento novo

Flora Figueiredo

Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenescia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.

Enlevo

Flora Figueiredo

Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

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