Contos de Natal

Os Contos de Natal são pequenas histórias capaz de inspirar qualquer pessoa nessa época tão linda e encantadora. Confira e se encante você também! Encontre toda a magia que o Natal pode oferecer a você.

Reunindo a família

Luiz Vilela

Entre, Pai. Entre, Mãe. Entre, Joaquim. Vô Zeca. Vó Mariquinha. Tio Nunes. Rosa. Que bom, que bom que vocês vieram - eu estou tão feliz. Vai ser uma noite linda. Vai ser a noite mais bela de todas. Vamos, sentem, ocupem seus lugares.
E o Pretinho? Por que o Pretinho não veio? Você também devia ter vindo, Pretinho. Aí eu te pegava e te punha no colo - você era tão macio, tão quentinho. Miau... miau... Que saudades, Pretinho...
Sentem, sentem. A senhora está tão bonita com esse vestido, Mãe. Vô, o senhor não larga seu cigarrão de palha, hem? E o senhor, Tio Nunes, cuidado, não vai contar aquelas piadas bobagentas. Vó Mariquinha, sabe que a senhora fica muito elegante com esse coque? E a Rosa? Sempre com esse sorriso... Joaquim, quantos anos, hem? Quantos anos... Muita água passou debaixo da ponte...
E o senhor, Pai? O senhor está tão sério; tão calado. Por que o senhor me olha assim? Por que o senhor não fala nada comigo? Fale, Pai; fale alguma coisa. Não fique me olhando assim. Vocês todos, parem de me olhar desse jeito. Por favor. Meu Deus, meu Deus... Tem dó de mim... Eu não queria isso, juro que eu não queria...
Não! Não e não! Onde está sua fibra, menina? Minha fibra? Minha fibra está aqui - ora, bolas. Pensaram que eu fosse fraquejar? Pois estão muito enganados. Quem vos fala é a Aristotelina - a Lina. Há meses que eu venho planejando essa noite; pensam que eu vou desistir agora? Nunca.

Será uma noite única. Será uma noite sem igual. Nem todas as luzes de todas as casas juntas da cidade brilharão mais do que esta casa nesta noite de Natal. Nem todas as luzes de todas as ruas... Ai, Lina, você é impagável; parece que você nunca saiu do palco. Não saí mesmo: você sabe, uma vez atriz...
Joaquim, lembra daquele Natal em que eu te pedi uma porção de lâmpadas - eu ia iluminar toda a casa, ia fazer um colar de lâmpadas - e aí você me trouxe... Ah, meu Deus... Você me trouxe meia dúzia, Joaquim, meia dúzia de lâmpadas! Então eu falei: o que eu vou fazer com meia dúzia de lâmpadas? O que eu vou fazer? Aí você... Você falou... Eu não lembro... O que você falou?... Eu não lembro... Minha memória... Minha cabeça...
Noite feliz, noite feliz, o Senhor, Deus de amor, pobrezinho, nasceu em Belém. Não foi fácil: cada garrafa, um posto. Naquele maior, o sujeito: para quê? Eu: não é da sua conta. Ele: se eu não souber, eu não posso vender. Eu, então: é para tirar a cera do assoalho, assoalho de tábuas, casa antiga. Antipático. Depois, no último posto, o rapazinho: e aí, vó, vai virar motorista agora? Vou, eu vou fazer uma viagem pro céu. Então me leva com você, que a coisa aqui na terra tá braba. Mas ele foi gentil, ele foi atencioso.
Os sinos, eles estão batendo. Missa da meia-noite. Onze e quarenta e cinco. Quinze minutos. Nunca houve ninguém tão só. Nunca alguém, nesse mundo, se sentiu tão só. Nem se eu estivesse - só eu, só eu de gente - nem se eu estivesse lá num deserto de Marte ou lá numa cratera da Lua. Se o telefone tocasse. Se o telefone tocasse, talvez...
Chega. É hora. A meia-noite se aproxima. Vamos. Noite feliz, noite feliz, o Senhor... Uma garrafa aqui; assim. Outra aqui... Agora essa... Mais essa... E essa... Pronto. Que cheiro forte... Podia ser o cheiro de jasmim que antigamente, nas noites de verão, entrava pela janela aberta e inundava esta sala onde todos nos reuníamos e conversávamos e éramos felizes...

Meia-noite. Pego esta caixa; tiro um fósforo; risco e... Eis! O fogo!

Renovação constante da vida

Todo ano, desde os meus primeiros anos, esperava pelas chuvas e pelas mangas ansiosamente. Não entendia a época, porque elas andavam sempre juntas em fina sintonia.
Após meses de estiagem, apareciam novamente trazidas por um vento difuso rompendo as manhãs e amenizando o calor sufocante de minha terra. As chuvas chegavam energizando tudo que encontravam pela frente, a vida e o que não era vivo, as árvores secas, os pastos queimados, as ruas empoeiradas, as pessoas enclausuradas e as crianças, que como eu, também a esperavam.
Quando as primeiras mangas começavam a cair era o sinal que algo maior se aproximava. A alma das pessoas ficava mais leve, suavizava-se a medida em que a chuva e o colorido das mangas intensificavam-se...

Chuvas e mangas espalhavam-se pelas ruas de minha terra quente sinalizando que Ele estava chegando. Minha mãe dizia que Ele vinha do Polo Norte de Trenó, um tipo de veículo que as terras quentes não conhecem. Daí o clima mais ameno, era Ele chegando.
Além de presentes para todos os pirralhos e para as crianças bem comportadas, como eu, trazia também uma mensagem para a humanidade daquele cujo nascimento todo ano se comemora.
Com o passar do tempo, aprendi a apurar melhor a mensagem, cuja resposta estava sempre bem perto de mim simbolizada nas árvores, nas luzes e nos presépios que ainda hoje, adornam os lares na celebração do nascimento daquele menino como representação da força divina na renovação constante da vida, como as chuvas e as mangas de minha terra quente.

Morte no 805

Noel é um sujeito distinto. E Alzira, esposa dele, é uma senhora de fino trato. Os dois formam um casal agradável. Assim, não se sabe como, nem por que na véspera de Natal aconteceu aquela pancadaria, aquela gritaria, no 805.
Dizem que casais muito certinhos sempre escondem uma história complicada. Às vezes, de terror. Este seria o caso de Noel e Alzira, que juntos voaram da janela do apartamento e se estatelaram em cima do Fiat novinho do seu Geraldo, quebrando o para-brisas, afundando o teto e deixando um rastro de sangue antes de quicarem para a calçada.
Dona Ermengarda, antes mesmo do rabecão chegar, já tinha uma interpretação para os fatos: a Alzira havia descoberto o caso do Noel com aquela empregada deles – uma mulata de bunda grande e cinturinha fina que fingia que se esfregava com o zelador Alcides, mas andava mesmo era com o patrão.

Já o Alcides, que não queria confusão na história, afirmava que havia visto o casal discutindo algumas vezes sobre uma herança de um tio distante - um camarada que tinha muita terra, muitas fazendas em Goiás e que morrera só e sem filhos.
Enfim, os adultos procuravam esconder o rosto das crianças e as crianças procuravam ver de perto o conjunto de ossos fraturados, os membros e pescoços desconexos e a cara desfigurada de Noel e Alzira gritando: olha o olho dela!... e coisas que tais.

Depois que os corpos de Noel e Alzira foram recolhidos, ainda se ouviu comentários e versões. Até que a vizinhança começou a se aquietar e foi-se dispersando. E alguém falou algo como "este será um Natal inesquecível"...
Na manhã do dia 28, eu estava na portaria quando chegou a Jacira, a tal mulata bunduda que supostamente servia o melhor do jantar ao patrão. Pude observar suas feições (e o restante, é claro) quando o Alcides contou da morte violenta de Noel e Alzira. E pude ouvi-la dizer, dando um enfático tapa na testa: droga, dona Alzira errou de novo a receita de rabanada da falecida genitora do doutor Noel!

A Pequena Vendedora de Fósforos. Parte 1

Hans Christian Andersen

Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano. Em meio ao frio e à escuridão uma pobre menininha de pés no chão e cabeça descoberta caminhava pelas ruas. Quando saiu de casa trazia chinelos; mas de nada adiantavam, eram chinelos tão grandes para seus pequenos pezinhos, eram os antigos chinelos de sua mãe.
A menininha os perdera quando escorregara na estrada, onde duas carruagens passaram terrivelmente depressa, sacolejando.
Um dos chinelos não mais foi encontrado e um menino se apoderara do outro e fugira correndo. Depois disso, a menininha caminhou de pés nus - já vermelhos e roxos de frio. Dentro de um velho avental carregava alguns fósforos e um feicho deles na mão. Ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e ela não ganhara sequer um níquel. Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!
Os flocos de neve lhe cobriam os longos cabelos que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.

Luzes brilhavam em todas as janelas e enchia o ar com um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano Novo.
Sim, nisso ela pensava!
Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menininha ficou sentada; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior. Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão. O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, exceto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.

Suas mãozinhas estavam duras de frio.
Ah! Bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!
Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.
Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha...
Que luz maravilhosa!
Com aquela chama acesa a menininha imaginava que estava sentada diante de um grande fogão polido, com lustrosa base de cobre, assim como a coifa.
Como o fogo ardia! Como era confortável!
Mas a pequenina chama se apagou, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.
Riscou um segundo fósforo.

Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela se tornou transparente como um véu de gaze, e a menininha pôde enxergar a sala do outro lado. Na mesa se estendia uma toalha branca como a neve e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar. O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair bamboleando em sua direção, com a faca e o garfo espetados no peito!

Então o fósforo se apagou, deixando à sua frente apenas a parede áspera, úmida e fria.
Acendeu outro fósforo, e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para os cartões, mas nisso o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela as via como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.
Alguém está morrendo, pensou a menininha, pois sua vovozinha, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela cala, uma alma subia para Deus.

Nascimento e morte

Rubem Braga

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada, andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.
— Que é?
O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:
— Porcaria...
Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.
— Pera aí...
Andou para um lado ao outro e afinal, chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.
— Vamos ver aqui...
Com esforço, ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.
Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.
Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!
— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.
— Pera aí...
Arranjou afinal, um lugar melhor e a mulher passou de quatro com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.
O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.
De tardinha seguiram caminho e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não aguentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de seu Anacleto.
— Não...
Ficaram parados os três sem saber o que fazer quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.
— Eh, mulher...
Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.
— Oh, graças a Deus...
Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos, a mulher dava gritos de dor.
— Vai ser hoje, Faustino! Deus me acuda, vai ser hoje.
O carreiro morava numa casinha de sapé do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.
— Eu acho que o jeito...

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.
No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “sinhá” Tomásia, mas “sinhá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.
Faustino agradeceu a boa vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado ao lado da mãe adormecida.
— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!
— Natal?
Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.
— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...
Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:
— Eh, mulher, então "vâmo" botar o nome de Jesus Cristo!
A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:
— Eh, pai, vem vê...
— Uai! Pera aí...
O menino Jesus Cristo estava morto.

O sonho dos pinheiros

Haviam em uma linda floresta de pinheiros, alguns que conversavam entre si. Um pinheiro dizia ao outro: Estou cansado da floresta. Gostaria que um lenhador me cortasse e me levasse para ser um majestoso mastro de navio. Como adoro o mar! Como queria conhecer outros lugares, estar em cada porto. Deve ser emocionante!
Outro pinheiro já pensava assim:
Eu gostaria de ser levado para uma serraria e de que minha madeira fosse transformada em um bonito móvel. Um piano por exemplo... Onde um pianista sensível fizesse vibrar as harmoniosas sonoridades que sairiam do meu interior. Como eu gostaria de ser um piano.
Havia ainda, um lindo e pequenino pinheiro que suspirando dizia: Ah! Quem me dera ser uma árvore de Natal em uma residência com grandes salas, ricos tapetes e lustres, espelhos e quadros. Finos cristais de festa. Muitas crianças a minha volta, e entre meus ramos ricos presentinhos, bolas coloridas, velas multicores, balas doces e bombons. Que alegria, que felicidade! Nada poderia ser igual.
No entanto, na floresta, a beleza da natureza não era apreciada pelos pinheiros descontentes. O sol todas as manhãs vinha beijar-lhes a copa esverdeada. Os pássaros cantavam em seus ramos e os insetos zumbiam, zumbiam.
O aroma das pequenas flores silvestres não os sensibilizavam. Os esquilos brincavam a sua volta e de vez em quando algumas lebres saltitantes apareciam para conversar, uma com as outras. Mas os pinheiros tinham outros sonhos. A claridade da lua, o frescor das madrugadas, não os enterneciam. Sonhavam com uma felicidade distante.

Um dia, um lenhador cortou-os e foram levados separadamente. Não sabemos para onde todos foram. Porém, acompanhamos o mais pequenino que desejava ser árvore de Natal. Vamos encontrá-lo, engalanado de enfeites e guloseimas, assim mesmo como houvera sonhado. Estava radiante! Que alegria, como estava bonito! As crianças brincavam ao seu redor. Tantos presentes em caixas estavam colocados aos seus pés. A festa foi maravilhosa: porém, o contentamento não durou muito. Lá pela meia noite todos queriam os presentes e as crianças arrancaram-lhe todas as bolas e uma vela caiu acesa e começou a queimar-lhe um galho - ai, ai, ai, gemeu o pobre pinheiro.
No outro dia, puseram-no em um porão junto a outras coisas velhas e ali ficou, esquecido de todos. Seus ramos e folhas antes tão verdes e viçosos estavam agora amarelecidos e murchos. Estava triste e infeliz, arrependido de seu sonho. Sentia saudades da floresta agora. O sol, os pássaros, as borboletas, os coelhos e os esquilos pulando e brincando ao seu redor distraiam-no tanto! Que saudades! Só os ratinhos visitavam-no casualmente. Um dia um passou e perguntou-lhe:
Sabe onde fica a cozinha? Estou com tanta fome, com vontade de comer um naco de toucinho ou de queijo.
Não sei, respondeu o pinheiro. Mas estou tão só, não me deixes. Fique aqui comigo.
Não, não, disse o ratinho. Tenho que correr, correr... Lá se foi e aqui ficou o pobre pinheiro, chorando a sua solidão.

Passou o tempo, foi-se o verão, outono e já vinha o inverno e o nosso pinheiro estava velho e seco. Um dia o dono da casa resolveu fazer uma limpeza no porão e tirou o pobre pinheiro para o quintal, mandando o jardineiro cortá-lo para o fogo. As crianças ainda acharam uma estrela que servira-lhe de enfeite quando estivera na sala como árvore de Natal. É minha, disse o menino. E arrancou-lhe a peça, cheio de alegria.
As últimas lágrimas, fluíram para a infeliz árvore. Feita em pedaços foi aproveitada para uma fogueira, e de seu tronco e poucas ramagens, restou apenas um punhado de cinzas. As crianças estiveram ao seu redor, aproveitando o calor das chamas para o aquecimento de suas de suas mãos. O pinheiro era matéria que se transformou em energia, disse o menino maior que já conhecia ciência.

O soldado e o Papai Noel - parte 1

Um pouco antes da meia noite daquela distante véspera de Natal na Faixa da Gaza, o soldado José S. abandonou a contragosto a simples e ao mesmo tempo, tocante Ceia de Natal que se realizava no rancho do Batalhão Brasileiro.
Coubera a ele a responsabilidade de render seu solitário colega na guarita do portão principal do Campo Brasil.
O Soldado José pegou um pedaço de torta de nozes para comer mais tarde, embrulhou-o num guardanapo, ato contínuo, guardou no bolso externo de sua calça. Apanhou o capacete, abotoou a japona e vestiu o cinturão. Desejou um Feliz Natal a seus colegas e superiores. Fechou a porta do refeitório atrás de si e, em passos firmes, dirigiu-se a seu destino, olhando surpreso para o firmamento. Fazia bastante frio naquela noite linda e incrivelmente estrelada: dava a impressão de haver mais estrelas no céu do que o normal.

A forte aragem fez com que o nosso herói levantasse a gola de sua japona e enfiasse as mãos nos bolsos para protegê-las do frio de cerca de zero grau.
No meio do caminho, ouviu mais de uma vez seu nome ser chamado e, ao virar a cabeça, à procura daquela voz estranhamente familiar, levou um tremendo susto ao deparar-se com uma figura iluminada de cabelos e barba brancos e encaracolada, faces rosadas e voz rouca, muito parecida com a do padre de sua pequena paróquia no interior do Brasil.

Antes que ele entendesse o que se passava, esboçasse qualquer gesto, a tal figura abriu um sorriso contagiante e foi logo se apresentando: "Olá José, sou o Papai Noel, lembras de mim? Estou a tua espera para te dar um presente de Natal. Veja só, passei antes em algumas lojas de Beirute e escolhi algo muito especial para ti. Tenho certeza que vais adorar o presente!"
"Mas... Mas peraí, Pa... Papai Noel, como o senhor sabe meu nome?”, balbuciou um intrigado soldado José, aos poucos recuperando o fôlego e sendo tomado por um súbito calor:
"Presente para mim? Mas eu não sou nada, sou um simples soldado... Não sou a pessoa mais indicada... "
"José, meu querido", interrompeu o visitante com brandura, "tu representas a simplicidade do homem há muito tempo perdida e a pureza de coração dos humildes..."

O soldado e o Papai Noel - parte 2

O soldado esticou seu braço, impedindo que o ‘bom velhinho’ abrisse seu saco de presentes, e disse com sua simplicidade característica: “Mas P Papai Noel, já ganhei meu presente de Natal... Não preciso de mais nada... Só em estar aqui na Faixa, com meus irmãos de todas as Regiões do Brasil, guarnecendo a IF e a ADL, cumprindo nossa Missão de manter a paz nesta região, é mais do que um presente de Natal, para todos nós, o senhor não acha?”.
“Meu bom José, me chame de você’...” já havia ouvido falar dos “Boinas Azuis” da ONU, mas não acreditava que tais heróis pudessem existir’, continuou um emocionado ‘bom velhinho’ com voz embargada...Enquanto isso, ouvia-se à distancia ecos de uma estranha melodia... “Graças a vossa constante vigilância desta fronteira, e dos esforços de outros colegas voluntários de diversas nações estrangeiras, as famílias desta e de outras regiões conflagradas em redor do planeta, podem ter o privilégio de se reunir em paz e celebrar esta Noite de Natal... algo tão banal e rotineiro em outras partes do mundo, não é mesmo?... A humanidade sempre será grata a vocês, e aos criadores das Forças de Paz, independente de nacionalidade de raça ou credo...

Nosso amigo José, nesta altura do campeonato suando as bicas, e mal conseguido enxergar o mostrador de seu relógio, tamanha era a torrente de lagrimas que brotavam de seus olhos, interrompe esta verdadeira “Ode ao Boina Azul” proferida pelo mágico personagem : “Escute Papai Noel... Já é quase meia noite, vamos nos atrasar; o senhor para entregar os presentes para as criancinhas do Oriente Médio e de outras partes do mundo... Eu para render meu solitário companheiro, lá na guarita!”
Hii! É mesmo, meu bom rapaz, preciso voltar a pegar a estrada!” Disse Papai Noel, como se despertasse de um transe”. O soldado José sentiu sua mão direita sendo envolvida pelo aconchego das luvas do bom velhinho, quando este disse sorrindo: Massalâma, meu jovem!! (Adeus! - em arabic)... Shalom!! (Paz! - em hebraico) deu meia volta e ‘voou’ para seu velho trenó, estrategicamente escondido no meio de uns arbustos.

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