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Poemas de Antônio Gomes Leal

Antônio Duarte Gomes Leal, mais conhecido como Antônio Gomes Leal, nasceu em Lisboa e foi um poeta e crítico literário de Portugal. Após a morte de sua mãe, o escritor se converteu ao catolicismo e vivia de caridade.

O Mundo Velho

Antônio Gomes Leal

Nas crises deste tempo desgraçado,
Quando nos pomos tristes a espalhar
Os olhos pela historia do passado...
Quem não verá, contente ou consternado,
- Mundo velho que estás a desabar - ?!...

Sim tu estás a morrer, vil socio antigo...
E Pai de nossos vícios e paixões!
Camarada dos crimes, torpe amigo...
- Morre, emfim, correrá no teu jazigo,
Em vez de vinho, o sangue das nações!

Deves morrer, provecto criminoso!
Tens vivido de mais, vil sensual!
Tu estás velho, cansado e desgostoso,
E, como um velho principe gotoso,
Ris, cruelmente, ás sensações do mal.

- Que é feito do teu Deus, do teu Direito?
- Onde estão as visões dos teus prophetas?
- Quem te deu esse orgulho satisfeito?
Moribundo Capaz, junto ao teu leito,
Morrem, debalde, os gritos dos poetas!

No tempo em que eras forte, foi teu braço
Que apunhalou os grandes ideaes!...
Hoje estás gordo, sensural, devasso,
E andas, torpe a rir, como um palhaço,
Num circulo luzente de punhais.

Tu tens vendido os justos no mercado!
Crucificado o nobre, o belo e o bom!
Vais cair templo podre e abandonado,
Não á voz de Jesus ensanguentado,
- Mas ao verbo sinistro de Proudhon.

É elle que te arrasta ao teu jasigo,
Andas vergado á sua maldição!
Cambalêas ao funebre castigo,
E passas corcovado como o antigo,
Escravo, sob o lenho da paixão!

O seu grande clarão ainda inunda,
Fulminou-te, morcego, á sua luz!
Marcou-te a consciência rota e imunda,
E a chaga que te abriu é mais profunda
Que a do lado direito de Jesus!

Nenhum deus, já ninguém pode curá-la!
Hás-de morrer, caído anfitrião;
É essa a dr eterna que te rala,
- Manda erguer o caixão na tua sala,
Prepara o funerário cantochão!

Tu tens quebrado os peitos mais robustos,
Tens dado aos santos o vinagre e o fel...
- Bom conviva de Nero e dos Procustos,
Andas ébrio do sangue de mil justos,
De mil sábios... de Cristo e de Rossel!

Tens talhado a teu modo a Sociedade!
E por isso o infeliz que te condemne;
Ensanguentaste as mãos da Mocidade,
Nunca amaste o Direito ou a Equidade,
Matas Vales...... Deixas viver Bazaine.

Tu viveste contente e agasalhado
Entre os brilhantes, e as visões do gaz!
- Bem te importava a neve... e o ar gelado,
O Frio e a Fome... É tépido o Pecado!
Calvo amigo!... Venceu-te Satanás!

Tornaste o Templo casa de penhores,
- Mas ninguém ora a Deus nas catedrais!
E já cheios de lastimas e dores,
Nós lemos mais nas pétalas das flores
Do que em todas as folhas dos missaes!

Morre, morre, venal, sem um gemido!
- Nem podes, levantar as mãos aos céus!
Ha muito que ris disso, aborrecido?
Em nada creste, em nada!--Adeus vencido!
Morre ai como um cão!--Vencido, adeus!

Morre, morre, na luta, pois, soldado!
Corpo cheio de tédio e de bolor!
- Adeus, velho navio destroçado!
- Morre! antigo conviva do pecado!
- Faltou-te sempre Deus, a Lei e o Amor!

Madrigal Excêntrico

Antônio Gomes Leal

Tu que não temes a Morte,
Nem a sombra dos ciprestes,
Escuta, Lirio do Norte,
Os meus cânticos agrestes:

Tu ignoras os desgostos
De um coração torturado,
Mais tristes do que os soes postos,
Ou de que um bobo espancado!

Eu bem sei, ó Musa louca
Que não conheces a magoa...
E tens um riso na boca
Como um cravo aberto na água...

Eu bem sei... bem sei que ris
Dos meus madrigaes modernos.
Sem cuidar, ó flor de liz!
Que hão de chegar-te os invernos!

Que nos corre a Mocidade,
Qual folha verde do val,
E ha de vir-te a tempestade,
Ó branco lírio real!

Que has de ser como a açucena
Varrida pelo nordeste...
E os prantos da minha pena
Que hão de regar teu cypreste!

Que ha de a terra agreste e dura
Servir-te de ultimo leito...
E a pedra da sepultura
Quebrar teu corpo perfeito!

E has de, emfim, ser devorada
Na fria noute, entre os bichos...
Ó tu que andas adorada,
Como as santas sobre os nichos!...

- Eu bem sei que te não does
Do meu coração ralado,
E fazes aos rouxinoes
Parodias sobre o teclado.

Que amas ver - como em um drama,
O meu coração ferido,
Como um gladiador de fama,
Sobre um teatro vencido.

- Ah! mas eu que já estou velho...
Carcomido como a Cruz...
Digo adeus ao céu vermelho...
E às boas tardes de luz!

Adeus, adeus, ó Amor!
Sinistra farça divina,
Mais sonoro que o tambor
De bohemia bailarina!

Adeus, adeus, ó outono!
Vão-se as folhas amarelas!...
Sinto-me cair de sono,
Olhando para as estrelas!

Sigam todos os meus rastros!...
Andei errado o caminho!
E sinto-me ebrio dos astros
Como um bebado de vinho!

Adeus, adeus rola amada!
Não chores a minha viagem...
Vou hospedar-me no Nada,
Como na boa estalagem!

Adeus, adeus, Mocidade!
Já chega o inverno do Mal!...
Vae despir-te a Tempestade
Nevado lírio real!

Chegou a noite fechada!
Adeus tardes das janellas!
- Pintai-me agora no Nada
Sobre as tristes aquarellas!