Poemas

Poemas de Beleza

A beleza está em todos os lugares, todos os detalhes, no céu, na terra, nas pessoas, nos animais... Beleza, uma palavra, um elogio, em tudo o que vemos.

Hino à beleza

António Feijó

Onde quer que o fulgor da tua glória apareça,
Obra de gênio, flor de heroísmo ou santidade,
Da Gioconda imortal na radiosa cabeça,
Num ato de grandeza augusta ou de bondade,

Como um pagão subindo à Acrópole sagrada,
Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,
Ou seja o Herói que leva uma aurora na Espada,
Ou o Santo beijando as chagas do Leproso.
Essa luz sem igual com que sempre iluminas
Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio
Do mesmo foco em mil parábolas divinas:
Raios do mesmo olhar, ânsias do mesmo seio.

Alta revelação que, baixando em segredo,
O prisma humano quebra em ângulos dispersos,
Como a água a cair de rochedo em rochedo
Repete o mesmo som, mas em modos diversos.
É audácia no Herói; resignação no Santo;
Som e Cor, ondulando em formas imortais;
No mármore rebelde abre em folhas de acanto,
E esmalta de candura a flora dos vitrais.

Ó Beleza! Ó Beleza! as Horas fugitivas
Passam diante de ti, aladas como sonhos...
Que importa onde elas vão, doutra força cativas,
Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente,
Brilham as aves como estrelas, e as estrelas,
Como flores enchendo a noite refulgente,
Deixam-se resvalar sobre quem vai colhê-las...

És tu que às ilusões dás juventude e forma,
Tu, que talvez do céu, de onde vens, te recordes
Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma
Dissonâncias de dor em imortais acordes.

Vejo-te muita vez, — luz de aurora ou de raio,—
Como um gládio de fogo a avançar no horizonte;
Ou então, em manhãs transparentes de Maio,
Náiade toda nua a fugir duma fonte.
Outras vezes, de noite e a ocultas, apareces,
Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha,
Trazendo no regaço inesgotáveis messes,
Que Ele por tuas mãos sobre a miséria espalha...

Pudesse eu revelar-te em estrofes aladas,
Que partissem ao Sol refulgindo em lavores,
Com rimas de oiro, em talau e púrpura engastadas,
como versos que vão desabrochando em flores!

Mas a língua não é sumptuosa bastante
Para nela deixar teu gênio circunscrito;
Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante,
E a voz nem mesmo tem a eloquência dum grito!
Mas se para o teu culto, em esplendor externo,
Não encontro uma prece altamente expressiva,
Por ti meu coração arde dum fogo eterno,
Como chama a tremer de lâmpada votiva!

Há uma mulher a morrer sentada

Daniel Faria

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens.

Sua Beleza

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser

Beleza

Almeida Garrett

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.

Em busca da beleza

Fernando Pessoa

Soam vãos, dolorido epicurista,
os versos teus, que a minha dor despreza;
já tive a alma sem descrença presa
desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
mas vi depressa, já sem a alma acesa,
que a própria ideia em nós dessa beleza
um infinito de nós mesmos dista.

Nem à nossa alma definir podemos
a Perfeição em cuja estrada a vida,
achando-a intérmina, a chorar perdemos.

O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
mas não a ânsia da Coisa indefinida
que o ser indefinida faz tamanha.

Morri pela beleza

Emily Dickinson

Morri pela beleza, mas mal me tinha
acomodado à campa
quando Alguém que morreu pela verdade,
da casa do lado

Perguntou baixinho "Por que morreste?"
"pela beleza", respondi
"E eu, pela verdade. Ambas são iguais
E nós também, somos Irmãos", disse ele

E assim, como parentes próximos, uma Noite -
falamos de uma casa para outra
até que o musgo nos chegou aos lábios
e cobriu - os nossos nomes.

Há em toda a beleza uma amargura

Walter Benjamin

Há em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura

Não fica igual aos vivos no que dura
e a não pode entender qualquer vivente
qual no cabelo orvalho ou brisa rente
quanto mais perto mais se desfigura

Ficando como Helena à luz do ocaso
a língua dos dois reinos não lhe é azo
senão de apartar tranças ofuscante

Mas à tua beleza não foi dado
qual morte a abrir teu juvenil estado
crescer e nomear-se em cada instante?

À Beleza

Miguel Torga

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Beleza pura

Charles Baudelaire

De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor de Carrara

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..

Tenho, pra fascinar o meu dócil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A própria imperfeição: — os meus olhos ardentes!

Em dias de luz perfeita e exata

Alberto Caeiro

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

A vós seu resplendor deu sol e lua

Luís Vaz de Camões

Pelos raros extremos que mostrou
em sábia Palas, Vênus em formosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
África, Europa e Ásia as adorou.

Aquele saber grande que juntou
espírito e corpo em liga generosa,
esta mundana máquina lustrosa
de só quatro elementos fabricou.

Mas fez maior milagre a natureza
em vós, Senhoras, pondo em cada uma
o que por todas quatro repartiu.

A vós seu resplendor deu Sol e Lua:
A vós com viva luz, graça e pureza,
ar, fogo, terra e água vos serviu.

A minha amada será um assombro de beleza

Francisco Joaquim Bingre

Muitos hão-de julgar que a minha amada
será um raro assombro de beleza.
Porém, não é assim, à Natureza
ela só deve uma alma bem formada.

Os dotes pessoais de que é ornada
são filhos duma pura singeleza:
A constância, lealdade, amor, firmeza,
nos versos meus a fazem decantada.

O seu cândido ser só eu conheço,
o valor que ela tem não se presume:
só eu, que os seus afetos lhe mereço.

Em seu peito de amor, não morre o lume
eu amo um coração que não tem pressa,
uma alma singular, Marília, um Nume.

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