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Poemas de Wislawa Szymborska

Irônica, a obra de Wislawa tem contexto histórico e é repleta de fragmentos da realidade humana. A poetisa foi tão admirada que ganhou traduções em mais de 36 línguas.

02/07/1923 01/02/2012
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O fim e o início

Wislawa Szymborska

Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e conseqüências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.

PI

Wislawa Szymborska

O admirável número pi:
três vírgula um quatro um.
Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco nove dois porque ele nunca termina.
Não se pode capturá-lo seis cinco três cinco com um olhar,
oito nove com o cálculo,
sete nove ou com a imaginação,
nem mesmo três dois três oito comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, arf, sempre empurrando a preguiçosa
eternidade.

Quarto do suicida

Wislawa Szymborska

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta — um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos.

E não era sem saída este quarto,
ao menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo — ou seja, ainda viva.

Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma —
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.

Possibilidades

Wislawa Szymborska

Prefiro filmes.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos ao longo de Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievsky.
Prefiro-me gostando de indivíduos
a mim mesma amando a humanidade.
Prefiro manter uma agulha e linha à mão, em caso de precisão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não suster
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as antigas bem alinhadas ilustrações.
Prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas.
Prefiro, quando o amor diz respeito, aniversários inespecíficos
que podem ser comemorados todos os dias.
Prefiro moralistas
que me prometem nada.
Prefiro bondade astuta ao tipo super confiante.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro conquistados a países conquistadores.
Prefiro ter algumas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas dos Grimms às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro cães com caudas descortadas.
Prefiro os olhos claros, uma vez que os meus são escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas coisas que também deixei não ditas.
Prefiro os zeros à solta
àqueles alinhados atrás de uma cifra.
Prefiro o tempo de insetos ao tempo de estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo e quando.
Eu prefiro manter em mente a possibilidade
de que a existência tem sua própria razão de ser.

A cortesia dos cegos

Wislawa Szymborska

O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê-pois já não pode parar-
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
Ele gostaria de omitir-embora seja impossível-
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.

Utopia

Wislawa Szymborska

Ilha onde tudo se torna claro.
Chão sólido debaixo dos pés.
As únicas estradas, aquelas que oferecem acesso.
Arbustos curvam-se sob o peso das provas.
A Árvore das Suposições Válidas cresce aqui
com ramos desembaraçados desde tempos imemoriais.
A Árvore do Entendimento, deslumbrantemente reta e simples,
brota pela primavera chamada Agora Eu Entendi.
Quanto mais espessos os bosques, mais vasta a vista:
o Vale dos Obviamente.
Se algumas dúvidas surgem, o vento as dissipa instantaneamente.
Ecos agitam-se sem citar
e ansiosamente explicam os segredos dos mundos.
À direita, uma caverna, onde o Significado repousa.
À esquerda, o Lago das Convicções Profundas.
A verdade verte do profundo e move-se para superfície.
Inabaláveis torres da Confiança sobre o vale.
Seus picos oferecem uma excelente vista da Essência das Coisas.
Apesar de seus encantos, a ilha está desabitada,
e as pegadas fracas espalhadas em suas praias
apontam sem exceção para o mar.
Como se tudo o que você possa fazer aqui é deixar
e mergulhar, para nunca mais voltar, nas profundezas.
Na vida insondável.

 

Museu

Wislawa Szymborska

Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.
Há um leque –onde os rubores?
Há espada– onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.
Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias (…)
A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a uva.
A bota direita derrotou a perna.
Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
Como ele adoraria sobreviver!

Fotografia do 11 de setembro

Wislawa Szymborska

Pularam dos andares em chamas-
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles-
descrever este voo
e não acrescentar o último verso.

Paisagem com grão de areia

Wislawa Szymborska

Nós o chamamos de grão de areia,
mas ele não se considera nem grão nem areia.
Vive perfeitamente bem sem um nome,
seja genérico, particular,
provisório, permanente,
incorreto ou preciso.
Nosso olhar, nosso toque nada significam para ele.
Ele não se sente observado e tocado.
E o fato de que caiu no parapeito
é uma experiência nossa, não dele.
Poderia cair em qualquer outro lugar,
sem saber se parou de cair
ou se continua caindo.
A janela tem uma bela vista do lago,
mas a vista não se vê a si mesma.
Ela existe nesse mundo
sem cor, sem formato,
sem som, sem cheiro e sem dor.
O fundo do lago existe sem chão
e sua margem, sem beira.
Sua água não se sente nem seca nem molhada
e suas ondas nem uma nem muitas.
Elas quebram surdas a seu próprio barulho
em pedras nem grandes nem pequenas.
E tudo isso sob um céu que por natureza não é céu,
onde o sol se põe sem se pôr
e se esconde sem se esconder por trás de uma nuvem indiferente,
agitada por um vento
que sopra apenas por soprar.
Um segundo passa.
Outro.
Um terceiro.
Mas esses três segundos são apenas nossos.
O tempo passou feito um mensageiro com notícias urgentes.
Mas isso é apenas nossa símile.
O personagem é inventado, sua pressa imaginária,
sua notícia desumana.

O terrorista, ele observa

Wislawa Szymborska

A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.

Tomada a morte, sem exagero

Wislawa Szymborska

Ela não pode fazer uma piada
encontrar uma estrela, construir uma ponte.
Ela nada sabe sobre tecelagem, mineração, agricultura,
construir navios, ou assar bolos.

No nosso plano para o amanhã,
ela tem a última palavra,
que está sempre ao lado do ponto.

Nem mesmo pode tomar parte
nas tarefas que fazem parte do seu comércio:
cavar uma sepultura,
fazer um caixão,
limpar tudo depois de si.

Preocupada com o matar,
ela faz o trabalho desajeitada,
sem sistematização ou habilidade.
Como se cada um de nós fosse a sua primeira morte.

Ah, ela tem seus triunfos,
mas olhe para os seus incontáveis fracassos,
sopros perdidos,
e tentativas de repetição!

As vezes, ela não é forte o suficiente
para golpear uma mosca no ar.
Muitas são as lagartas
que a superam.

Todas esses bulbos, vagens,
tentáculos, barbatanas, traqueias,
pluma nupcial e peles de inverno
mostram que ela tem ficado para trás
com o seu trabalho meia-boca.

A vontade da doença não basta
e até nossa mãozinha com guerras e golpes de estado
não é suficiente.

Corações batem dentro de ovos.
Esqueletos de bebês crescem.
Sementes, em trabalho duro, brotam o seu primeiro pequenino par de folhas
e, às vezes, até mesmo árvores altas seguem seu curso.

Quem afirma que ela é onipotente
está ele mesmo provando
que ela não é.

Não há vida
que não possa ser imortal
pelo menos por um momento.

Morte
sempre chega ao momento atrasada.

Em vão ela puxa a maçaneta
da porta invisível.
Tão logo você veio
não pode ser desfeito.

Encontro inesperado

Wislawa Szymborska

Nós nos tratamos com extrema cortesia,
dizemos: quanto tempo, que bom revê-lo.
Nossos tigres bebem leite.
Nossos falcões preferem o chão.
Nossos tubarões se afogam no mar.
Nossos lobos bocejam diante da jaula aberta.
Nossas cobras perderam seu lampejo,
nossos macacos, sua graça; nossos pavões, suas plumas.
Faz tempo que os morcegos deixaram nossos cabelos.
Caímos em silêncio no meio da conversa,
e não há sorriso que nos salve.
Nossos humanos
não sabem falar uns com os outros.

Por um acaso

Wislawa Szymborska

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

O prazer da escrita

Wislawa Szymborska

Por que a palavra corça surge em meio a esse bosque escrito?
Para bebericar água da primavera descrita
cuja superfície copiará seu focinho mole?
Por que ela levanta a cabeça; será que ouve alguma coisa?
Debruçada sobre quatro pernas finas emprestadas da verdade,
ela pica até as orelhas sob os meus dedos.
Silêncio - esta palavra também se agita por toda a página
e parte os ramos
que surgiram a partir da palavra "bosque".
De emboscada, definidas para atacar a página em branco,
estão palavras não muito boas,
garras de cláusulas tão subordinadas
que nunca irão deixá-la ir embora.
Cada gota de tinta contém um suprimento justo
de caçadores, equipados com olhos apertados por trás de suas vistas,
preparados para mergulhar a inclinada caneta a qualquer momento,
cercar a corça e lentamente apontar as suas armas.
Eles se esquecem de que o que está aqui não é vida.
Outras leis, preto no branco, valem.
O piscar de olhos vai demorar tanto quanto eu disser,
e, se eu quiser, será dividido em pequenas eternidades
cheias de balas, paradas em pleno voo.
Nada vai acontecer, a menos que eu diga.
Sem a minha bênção, nem uma folha cairá,
nem uma lâmina de grama irá se dobrar sob aquele pequeno casco.

Há então um mundo
onde eu governe absolutamente o destino?
Um tempo que eu ligue com cadeias de sinais?
Uma existência tornada interminável sob meu lance?
O prazer da escrita.
O poder de preservação.
Vingança de uma mão mortal.

Torturas

Wislawa Szymborska

Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo sangue,
tem uma boa reserva de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.
Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo,
as torturas são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado .
Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo a escala e registro sempiternos (…).

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