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Poemas de Salomão Rovedo

Salomão Rovedo ficou conhecido por participar de movimentos poéticos em décadas passadas e hoje em dia por divulgar suas obras na internet. Conheça os seus principais poemas.

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Os mariscos

Salomão Rovedo

Saboroso senti-los vivos:
Água do mar na saliva,
uvas tintas de vinhos
e gotas azedas de limão.

Mariscos a la ostra – crus
bom tinto entre garfadas
agora vão morrer na boca
beijo venenoso das deusas.

Completamente de porre,
em Viña del Mar e Reñaca,
Oceano Pacífico valente,
ou no Atlântico pacífico.

São Luis, Rio de Janeiro,
em Aracagi ou Recreio,
sabem o puro rico sabor,
ressecada boca de areia.

Os sais e os sóis

Salomão Rovedo

São as colinas de sal e sol,
o entardecer verde e roxo,
são as águas-vivas na areia,
os galhos podres na praia,

o silêncio da onda quebrando,
enquanto pescadores arrastam,
arrastam a rede no quebra-mar,
são as algas flutuando ao léu,

à noite que chega a barlavento,
são as altas palmeiras penteadas,
o som das dunas que se movem,

são crianças saltitando piruetas,
alguma novela de amor na TV:
todo o Universo relembra você.

Ondas sambas

Salomão Rovedo

Domingo na praia
Muito sol a brilhar
Teu corpo na areia
Moreno a dourar

Foi lá que eu te vi
Foi lá que te conheci
Foi lá que te paquerei
Foi lá que te namorei

Fiquei marcando bobeira
Debaixo daquele céu
Teu olhar de feiticeira
Me mandou pro beleléu

E Domingo na praia
Sol quente a brilhar
Senti teu corpo moreno
Muito doidão me deixar

As dunas meninos

Salomão Rovedo

As crianças correm pelas dunas de areia fina
desviando os galhos verdes dos pés de muricis.
O vento estabanado, cabelos lisos em caudal,
esticam os lábios em sorrisos quilométricos.

Corre menino de areia
Corre direto pro mar,
Corre que o mundo é teia
Pra quem não sabe nadar...

Era domingo sempre, mas o sol não via que era:
crianças livres corriam pelas dunas alvacentas.
A descida é escorregadia, patinam sobre grãos,
imitam anjos de algodão que vivem nas nuvens.

Corre menino de areia
Corre direto pro mar,
Corre que o mundo é teia
Pra quem não sabe nadar...

Gritos se transformavam em cantoria musical
arrastados coloridos longe lá onde o som voa.
Antes que as pegadas dos pés miúdos sumam,
levadas pelo uivo irado do vento, estava o mar.

Corre menino de areia
Corre direto pro mar,
Corre que o mundo é teia
Pra quem não sabe nadar...

Braços abertos são pássaros marinhas crianças,
enfrentam o desafio mais importante de suas vidas.
Para atender o chamado vital do mar, as narinas
dilatadas, correm igual tartarugas recém-nascidas.

Corre menino de areia
Corre direto pro mar,
Corre que o mundo é teia
Pra quem não sabe nadar...

As areias cores

Salomão Rovedo

Um pouco de azul não faz mal a ninguém,
nem o verde que se esgueira entre as casas
ou a mesma estrela multicor que me segue,
cintilando mistérios, emprenhada de segredos.

Faz bem o cristal salinoso que emerge da onda
e penetra entre as frestas das roupas, botões,
a espuma que lambe a epiderme rugosa e sã,
lábios ressecados noutros lábios ressecados.

Não faz mal o cheiro de mar aromatizado,
vasa que entranha e fere as narinas da alma,
nem faz mal a água doce que corre nos dedos
enquanto o rio se mexe direito a outros rios.

Faz muito bem a luz clara, manhã aventurada
que se debruça em cumprimentos e mesuras,
perseguindo o som em partitura emoldurada,
letra de música ministrada às rezas vesperais.

Não é mal despertar sobre o corpo dela em duna,
lençol de areia monazítica, amplo de vivacidade,
salgada sebe, glândulas salivares, cuspe, licor,
pudor rouco, gozo em azul, destilado entre coxas.

A baía de São Marcos

Salomão Rovedo

Por aqui começa o mar noutro mar,
a mais fértil terra dos pescadores
– eu penso em ti, em mais ninguém.

E nascem na praia campos de areia,
ali aonde o mar existe e não existe,
– mais louco que nunca para te ver.

O pescador é o camponês do mar,
ameia os peixes de colheita insossa,
– posso jurar ao vento que te amo.

Roçado de sal o pescador recolhe,
siri, caranguejo, flor de manguezal,
– é um mar em forma de sedução.

As Hildas sereias

Salomão Rovedo

Quando a encontrei era só açúcar,
prazer, dança, doce de goiaba e mel.
Um mar de sal e sol para temperar,
vinho branco e, ou, cerveja gelada.

Criação boa a receita de felicidade:
e assim foi o tempo das maresias,
ondas rasteiras, espaços espectros,
pores de sol. É verdade: o sol se põe?

Todos estão pensando que vou falar:
"Agora tudo é fel" (para rimar com mel),
mas que nada! Só a distância atrapalha
a convulsão mansa de nossa pele úmida.

Se possível, continua doce, mel e mel,
bacuri em calda, condimentos picantes,
sorvete de juçara... Já falei dos lábios?
Ara que boca! Ânsia devoradora! Ora...

 

As marés

Salomão Rovedo

Direi: é sábado, 30 de outubro,
a lua imensamente enorme,
muito maior do que o sol,
acachapante, humilhando
o pouco que restou de nós.

Boa noite antiguissima lua,
pode entrar, o coração é seu,
aplastra as vagas sem dó:
mete de entremeio o amor,
(afinal eleva-se a palavra).

Não há sentimento, nem maré,
nem provocação no céu vasto,
boa noite amiga lua, lua dela,
pode entrar, aplastam-se as vagas,
o coração é seu, ama-o sem dó.

Digo que é sábado de outubro,
de lua imensa (a mente dorme),
ó sol grande, de joelhos e casto,
indulgente e demasiado humano,
ama um pouco a sombra de nós.

As areias

Salomão Rovedo

Uma casa à beira da ria
sorri para o mar da janela.

No barco verde à deriva
pescadores tarrafeando.

Um sol na quase manhã
é como véu no corpo dela.

Guará goteja o mangue
vermelho içado de verde.

Os catadores de sururus
e caranguejos vermelhos.

Um corpo nu desmaiado
na alvura do lençol azul.

Maria, sim é Maria, é ela
que ri para o mar da janela.

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