Poemas de João de Deus

João de Deus de Nogueira Ramos, mais conhecido como João de Deus, foi um poeta lírico e considerado o primeiro pedagogo do seu tempo. Foi também criador de um dos métodos de ensino da literatura!

Escreve

Não sei o que supor
Do teu silêncio. Escreve!
Quem é amado deve
Ser grato ao menos, flor!

Se eu fosse tão feliz
Que te falasse um dia,
De viva voz diria
Mais do que a carta diz.

Mas olha, tal qual é,
Não rias desse escrito,
Que pouco ou muito é dito
Tudo de boa-fé.

Há nesse teu olhar
A doce luz da Lua,
Mas luz que se insinua
A ponto de abrasar...

Pareça nele, sim,
Que há só doçura, embora,
Há fogo que devora...
Que me devora a mim!

Que mata, mas que dá
Uma suave morte;
Mata da mesma sorte
Que uma árvore que há;

Que ao pé se lhe ficou
Acaso alguém dormindo
Adormeceu sorrindo...
Porém não acordou!

Esse teu seio então...
Que encantadora curva!
Como de o ver se turva
A vista e a razão!

Como até mesmo o ar
Suspende a gente logo,
Pregando olhos de fogo
Em tão formoso par!

Ó seio encantador,
Delicioso seio!
Que júbilo, que enleio,
Libar-lhe o néctar, flor!

Eu tenho muita vez
Já visto a borboleta
Na casta violeta
Pousar os leves pés;

E num enlevo tal,
Numa avidez tamanha,
Que a gente a não apanha
Com dó de fazer mal!

Pegada à flor então
No pé curvinho e mole,
As asas nem as bole
Toda sofreguidão!

Pousou... adormeceu!
Só vê, só ouve e sente
O cálix rescendente
Daquele mel do céu!

Pois vê com que prazer
E com que ardente sede
Te havia... que não hei-de!...
Também beijar, sorver!

Mas eu só peço dó,
Só peço piedade!
Mata-me a saudade
Com duas Unhas só!

Eu, a não ser em ti,
Achar alívios onde?
Escreve-me! responde
A carta que escrevi!

Cansado de esperar
Às vezes quando saio,
Pensas que me distraio?
Pois volto com pesar!

Concentra-se-me em ti
A alma de tal modo,
Que esse bulício todo
Nem o ouvi, nem vi!

Ninguém te substitui
Porque só tu és bela!
Que estrela a minha estrela,
E que infeliz que eu fui!

Mas devo-te supor
Sempre indulgente e boa:
Escreve-me e perdoa
Meu violento amor!

Respeita uma afeição
Inútil mas sincera!
Tu és mulher, pondera
O que é uma paixão.

Com sangue era eu capaz
De te escrever; portanto,
Tinta não custa tanto,
E não me escreverás?

Uma palavra, sim,
Que me não amas... queres?
Enquanto me escreveres,
Tu pensarás em mim!

Só essa ideia, crê,
Encerra mais doçura
Que as provas de ternura
Que outra qualquer me dê!

Não!

Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio:
Mas ouve-me, receio
Tomar-te desgraçada:
O homem, minha amada,
Não perde nada, goza;
Mas a mulher é rosa...
Sim, a mulher é flor!

Ora e a flor, vê tu
No que ela se resume...
Faltando-lhe o perfume,
Que é a essência dela,
A mais viçosa e bela
Vê-a a gente e... basta.
Sê sempre, sempre, casta!
Terás quanto possuo!

Terás, enquanto a mim
Me alumiar teu rosto,
Uma alma toda gosto,
Enlevo, riso, encanto!
Depois terás meu pranto
Nas praias solitárias...
Ondas tumultuárias
De lágrimas sem fim!

À noite, que o pesar
Me arrebatar de cada,
Irei na campa rasa
Que resguardar teus ossos,
Ah! recordando os nossos
Tão venturosos dias,
Fazer-te as cinzas frias
Ainda palpitar!

Mil beijos, doce bem,
Darei no pó sagrado,
Em que se houver tornado
Teu corpo tão galante!
Com pena, minha amante,
De não ter a morte
Caído a mim em sorte...
Caído em mim também!

Já exalando os ais
Na lúgubre morada
Te vejo a sombra amada
Sair da sepultura...
A tua imagem pura,
Fiel, mas ilusória...
Gravada na memória
Em traços tão leais!

Então, se ainda ali
Teus vaporosos braços
Me podem dar abraços
Como dão hoje em dia,
Peço-te, sombra fria,
No mais íntimo deles
Que a mim também me geles,
E fique ao pé de ti!

Mas ai! meu coração!
Tu porque assim te afliges,
E trémula diriges
A vista ao Céu piedoso?
O quadro é horroroso,
a cena triste e feia,
Basta encerrar a ideia
De uma separação...

Mas ouve, existe Deus;
Ora e se Deus existe,
Tão horroroso e triste
Que podes temer? Nada!
Desfruta descansada
O êxtase, o enleio
Em que eu já saboreio
O júbilo dos céus!

Deixa-me nesse olhar
Ver com a Lua assoma...
Sim, deixa no aroma,
Que a tua boca exala,
Ver como a rosa fala
Quando a aurora a inspira...
Ver como a flor suspira
Por ver o Sol raiar!

A morte para amor
É êxito sublime;
A morte para o crime
É que é amarga e feia:
A morte não receia
O verdadeiro amante!
Por ela a cada instante
Implora ela o Senhor.

É juntos, tu verás,
Que nós expiraremos!
Sim, juntos que os extremos
Olhares cambiando,
Iremos despegando
Do invólucro terreno
O espírito serreno
Como a eterna paz!

Vê, só porque supus
Chegado esse momento,
Já esse olhar mais lento,
As vistas mais serenas...
Bruxuleando apenas
Em lânguido desejo
Simpático lampejo
De uma inefável luz!

Há neste triste vale
De lágrimas a imagem
De dois nessa passagem
Para a eternidade:
A névoa, a ansiedade,
O júbilo que mata,
Dão uma ideia exata
Do trânsito fatal.

Mas essa imagem, flor,
É tão fiel, tão viva
Que à sua luz ativa
Se cresta a flor mimosa:
E nem o homem goza;
Se goza é um momento:
Depois... o desalento!
Depois... o desamor!

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