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Ary Barroso

Ary Barroso foi um grande compositor de música popular brasileira. Chegou a ser indicado ao Oscar de melhor canção original e também é reconhecido como autor de Aquarela do Brasil. Além disso, também foi o artista mais gravado por Carmen Miranda. Conheça mais sobre Ary Barroso!

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Vida - Parte 1

Ary Barroso

Minha vida foi uma luta terrível, obstinada e penosa. Minhas armas de defesa foram:

Idealismo, escrúpulo, trabalho, caráter, produção e, acima de tudo, fé, FÉ INQUEBRANTÁVEL!...
Assim consegui superar incompreensões, transpor abismos, galgar alturas, esmagar a maledicência e sair do outro lado com a cabeça erguida, a consciência limpa e as mãos incólumes ao crime.

Tudo o que fui, devo em primeiro lugar à propaganda que de mim fêz a minha música. Em segundo, a minha capacidade de luta e de renúncia; e sobretudo a um pouco de ingenuidade. Uma ingenuidade que pode ser condenável num homem que vive do que produz, mas, uma ingenuidade que trocada em medalhas, em louros, serviu para que eu hoje não tenha nada que dizer do meu passado.

Formei meu caráter e minha sensibilidade ao embate de fatigantes lutas. Jamais tergiversei e nunca me amedrontei. Por isso, pela flama com que combato aquilo que, no esporte, na música e na política, me parece errado, julgam-me um homem do contra. Mas, não. Sou, isto sim, um homem de fibra inamoldável e de temperamento inamolgável. Não participo do que julgo capaz de melindrar a justiça e o direito.

Vida - Parte 2

Ary Barroso

Minha vida sempre foi um mar encapelado. Detesto a superfície parada das lagoas. Se fui vitorioso, foi porque abri minha alma à luta com entusiasmo e esperança.

Foi uma contribuição modesta à música brasileira e esta é uma viagem ao passado, não com o fito de mostrar ruínas históricas, mas para ao longo do caminho, mostrar episódios marcantes da minha vida, numa contribuição para todos que se deixaram encharcar de materialismo e, que dominados pela frivolidade, inspirados no imediatismo, pensam que o mundo é só o dia que passa e que o futuro a "Deus pertence". Fórmula negativa de viver, já que há enorme diferença entre "viver" e "deixar-se viver".

Viver é plantar a semente, cuidar da árvore, colhêr os frutos, matar a fome...
Deixar-se viver é repetir o destino do tronco que a corrente carrega ninguém sabe para onde e para quê, acabando às vêzes engastalhado entre seixos ou largado na planície, apodrecendo a intempérie definitivamente inútil.

Um turbilhão! Eis aí a minha vida...

O florista das madrugadas

Ary Barroso

É moreno. Magro. Mais alto que baixo. Anda sempre de terno completo, colarinho e gravata. Tem um sorriso de dentes feios, mas, simpático. Corre bares, vendendo rosas e cravos. Numa cestinha. Há pouco tempo trazia uma rosa em cada mão. Hoje, a mercadoria perfumada é mais farta e variada. Sinal de prosperidade. Ele chega sempre depois do segundo uísque. Quem é que se esquiva à galanteria de três cravos lindos e vermelhos para a companheira da noite? Gosto mais dele do que daquela senhora gorda que vende flores de papel à porta do Night-and-Day. Detesto flores de papel! A imitação industrial da flor é um crime estético. Substituir o aroma leve, a vida, a linha caprichosa de uma rosa ou a imponência colorida de um cravo, pelo arremedo inodoro de papel amassado, é desolador. As flores naturais continuam a beleza feminina; as artificiais, deformam-na. Salve o florista de Copacabana que nos traz flores vivas e cheirosas com que enfeitamos, ainda que ilusoriamente, nossas conversas mansas à meia luz dos bares.

Amor forte e puro

Ary Barroso

O que me prende a ti, não é esse amor vulgar de janela ou de baile; é mais alguma coisa, como deves saber. Ninguém será capaz de te querer mais do que eu, por isso quero ser correspondido à altura da minha dedicação e sinceridade. A menina, a moça, a mulher, enfim, vale mais pelo espírito que por qualquer outro bem. Interessante! O Ary gostar de uma menina! Que fazer! Gosto e ardentemente, gosto e com um amor forte e puro.

Mais uma vitória

Ary Barroso

Começarei a estudar firmemente. Confia em mim que, a despeito de qualquer dificuldade, e se Deus me ajudar, farei os meus exames e depois irei ver-te aí mesmo.

Minha filhinha, cuida bastante de tua saúde, sim? Procura ficar gordinha. Eu gosto de ti, muito gordinha, muito, muito, muito...

Quinta-feira vou falar em um meeting em frente ao Teatro Municipal. Fui chamado com insistência para esse discurso, e vou falar do meu modo. Será mais uma vitória, na certa.

O Di está ótimo

Ary Barroso

"Cabeça branca de algodão. Ondas nos cabelos. Vermelho nas faces. Sorriso nos lábios. Alegria na alma e… dinheiro no bolso. Viu o "D. João VI" comer frango, foi comer um, inteirinho, e com a mão. No fundo do restaurante uma morena magra estava com ela mesma, só com ela, na mesa. Di apaixonou-se imediatamente. - "Adoro essas meninas tristes que andam sozinhas pela noite!"
e pregou os dois olhos pequeninos nos olhos da morena, embevecido enquanto, lentamente, mastigava um resto de coxa. Nisto, chegavam Carlos Machado, duas bailarinas e um bailarino do "Lido". Di largou a morena e foi falar francês com as francesas, tendo as palavras molhadas de "Piernaud". A morena, coitada, continuou como estava: com ela só. Escuta, morena:

"Solidão não é estar prêso encarcerado,
A cumprir alguma pena de prisão.
Solidão é mais... É viver isolado
Num vazio completo... com ilusão!"

Medo de avião

Ary Barroso

Se tenho? Respondo: com-ple-ta-men-te! Já fiz três viagens aos Estados Unidos (ida e volta, pelo Atlântico e pelo Pacífico); já fui muitíssimas vezes a Buenos Aires ou a Montevidéu. Já cortei os céus da minha "pátria" em todas as direções. Já fui de teco-teco ao Paraguai! Mesmo assim, o medo continua. Quando subo as escadas de um "Douglas" ou de um "Super-Constellation" é como se subisse um pelourinho. Quando meu nome figura na lista de passageiros de um avião qualquer, toda a tripulação se prepara para as maiores chateações. Controlo tudo: a afinação dos motores, o teto, temperatura, altitude de segurança, estado do tempo, tudo! Não quero conversa com ninguém. Não como. Fico vendo os minutos. Fico descobrindo "campos emergenciais" de pouso. Geralmente viajo na cabine do comandante. Vou sentado à direita do comandante. Como co-piloto. Já conheço a estória de todos aqueles ponteirinhos. Sei como funciona o goniômetro e conheço todos os movimentos para uma boa aterrissagem. Mais: sei que avião foi feito para "voar"; que motor foi feito para "rodar"; que avião não cai - é derrubado. Sei de tudo isso. Não adianta! Tenho medo! E esse medo ficou permanente quando alguém, procurando acalmar-me, disse aquela velha frase: "ninguém morre a não ser no seu dia". Toda vez que viajo, fico desconfiado de que chegou o dia... do comandante. E daí?

 

O homem-cão

Ary Barroso

Existe, sim senhores. O rio está cheio deles. "Homem-cão": homem que morde. Não figura em nenhuma escala antropológica e, até hoje, pois, escapou à argúcia dos nossos mais acreditados zoologistas. É uma variante do terrível "homo hominis lúpus". Não tem pelos grossos, mas, cabelos normais e a boca é comum, com dentes de tamanho natural. Freqüentam, em geral, escritórios comerciais, consultórios médicos, a Galeria Cruzeiro, boates, bares e, às vezes, as próprias residências da vítima. Outro dia, estava com um grupo de amigos, numa confeitaria, quando me disseram: "Lá vem o T. Vem morder na certa!". Esperei que o "animal" se aproximasse. Não fazia nenhum gesto especial. Tinha a boca cerrada, e não armava nenhum bote. Aproximou-se. Falou ou grunhiu? Falou. Falou com um companheiro. Este, meteu a mão no bolso. Julguei que fosse arrancar o revolver. Não! Tirou uma notinha de vinte e "sacrificou-a". O "homem-cão" esboçou um sorriso humano. Meu companheiro tinha sido mordido todo. Em geral, esse bicho morde e cai fora. Há espécimes que permanecem. São os piores. Cada um tem sua técnica especial. Quando querem morder, uns ficam mentirosos; outros humildes e lacrimejantes; outros, megalômanos (citam quantias imensas a receber dentro de dias), e assim por diante. De minha parte, considero-os empolgantes e lamento não poder fazer sobre eles um estudo mais detalhado.
- "Por que?" - perguntou-me um amigo.
- "Os que tentei estudar, me levaram alto!"

Direitos autorais

Ary Barroso

O feijão subiu. O leite subiu. A carne subiu. O cigarro subiu. A cerveja subiu. Há uma febre de "altitude" na vida de nossa terra. Os subsídios subiram. Os vencimentos dos funcionários civis e militares irão subir. Por que não querem admitir uma subidazinha nos direitos autorais dos compositores? É a eterna incompreensão! Certos cavalheiros ainda não se convenceram de que música, hoje em dia, é "mercadoria" sujeita à lei da oferta e da procura. O clube abre seus salões para divertir seus associados. Paga à Ligth a luz que consome; paga à confeitaria as "comidas" que come; paga aos músicos as horas que tocam. Só não quer pagar ao compositor, sem cujas melodias não haverá danças. Essa é fina! Meus senhores, há uma lei no Brasil denominada "Lei Getulio Vargas" que protege o nosso direito autoral. Em todos os Tribunais há jurisprudência pacífica sobre a matéria. Vamos deixar de bulha e paguem a música que consomem. Entrar de ignorância é que não se pode admitir.

Vida noturna

Ary Barroso

Pergunto: Há vida noturna no Rio de Janeiro? Se vida noturna é freqüentar os mesmos bares; correr os mesmos restaurantes; ver as mesmas caras; ouvir os mesmos cantores com as mesmas músicas; assistir os mesmos "shows"; discutir os mesmos assuntos; - se vida noturna é isso, a vida noturna carioca é formidável. E conservadora: não muda nunca. Entra ano, sai ano, é a mesma. De vez em quando aparece por aí um "Lido", uma Amalia Rodrigues, um Silvio Caldas ou uma Elizete Cardoso. Passam depressa e tudo retorna à tranqüilidade clássica. Os bares são semelhantes. As variações são mínimas. Tudo escurinho. Já se sabe que o amor adora a meia luz. Um pianista. Uma cantora. O "barman". A dose raquítica de uísque. O preço gordíssimo. Aves noturnas, tresnoitadas. Vazio, o bar parece corredor de Santa Casa. Cheio, pouca diferença tem de um mercado de peixe: gritaria. O carioca não sabe conversar baixinho. E a fumaceira? Os olhos se nos ardem até às lágrimas. E o freguês chatíssimo que nos abraça vigorosamente oito vezes e conta a mesma estória, quatro? E o chofer que só atende a clientes "para a zona norte"? E a mulher que nos vem vender flores de papel de seda? Vida noturna... O Rio tem vida noturna...

Carta

Ary Barroso

São 11 e meia da noite: vim agora do serviço e estou só no meu quarto, pois os companheiros foram ceiar no restaurante. Tenho à minha frente o seu retratinho aberto, como se fôsse o da santinha de minha veneração. Você não é capaz de calcular o que mandei fazer hoje no meu relógio! Adivinhe se é capaz...

Vou lhe dizer: mandei estampar aquela fotografia pequena no vidro do meu relógio. Que tal? Assim, eu não poderei perder-te de vista um só minutinho, mesmo porque, quanto mais te vejo, mais te admiro, ainda mais de longe...

Não posso viver sem você

Ary Barroso

Não posso viver sem você. Por entre noites e dias de incríveis emoções para mim: rodeado de celebridades mundiais que me consideravam um colosso, um "big composer", um "wonderful artist" eu penso em você com uma vontade infinita de ter você aqui ao meu lado, para que você pudesse conhecer, de fato, sinceramente, o quanto de felicidade que poderia the proporcionar. Estou positivamente convencido de que o meu mundo é esse aqui. Todos me apreciam, todos me querem, todos me aplaudem.

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