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Poemas de Michel Melamed

Um artista completo, o carioca Michel começou a escrever aos 15 anos. Hoje além de poeta, ele se dedica ao teatro e televisão. Conheça suas poesias.

10/03/1976
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Amor Incondicional

Michel Melamed

Eu sempre achei que o amor, que o grande amor, fosse incondicional.
Que quando duas pessoas se encontram, que quando esse grande encontro acontece, você pode trair, brochar, dar todas as porradas. Sendo um grande amor, ele voltará triunfal.Sempre!
Mas não, nenhum amor é incondicional.
Então acreditar na incondicionalidade do amor, é decididamente precipitar o fim do amor, porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo e um amor não aguenta tudo, nada nessa vida é assim!
E aí você fala que esse amor não tem fim, para que o fim então comece.
Um grande amor não é possível, talvez por isso seja grande.
Então, assim, nele, obrigatoriamente, pode caber também o impossível.
Mas quem acredita?
Quem acredita no impossível, que não apaixonadamente?
Como a um deus, incondicionalmente."

Rascunho

Michel Melamed

Matéria frágil é o amor, amor. Por exemplo: uma bomba nuclear e ele já era. Por isso todo casal deveria antes, durante e depois de tudo ser amigo. Só a amizade e as baratas sobreviverão ao fim do mundo do amor.

Outra: encantamento é a coisa mais importante do mundo (petróleo nada, os carros são movidos a encantamento). É claro que acho a criatividade a coisa mais importante do mundo, mas vida deveria ser um pedaço de criatividade cercado de encantamento por todos os lados. Quero dizer, criatividade é a chama, conquanto encantamento é o fósforo, a caixinha, o sambista… e o paiol.

Michelangelo sabia das coisas, vide “A Criação do Homem”. Assim, todo teto é potencialmente uma Capela Sistina. Em suma, encantamento é algo frágil. Encantamento é um bichinho de pelúcia que fala, anda e sente e pensa. É uma pessoa de pelúcia. É a pessoa mais linda do mundo de pelúcia. A pessoa mais linda do mundo nua e de polainas de pelúcia. E te amando. Encantamento é tesão lírico – ou tesão e lirisimo. Mas é frágil como qualquer coisa que morre. Cuide do seu encantamento sob risco de virar cimento – ou rima vã. Aliteração – ou renavam. Enfim, figura de linguagem, retórica, balela, baleia… Pois a sombra do encantamento é pesada e esperneia. Esmaga sem maldade, mas esmaga, atropela, pisa. Tem gente que a gente vê no olhar a sombra do encantamento repisando.

Lembrei dos Paralamas: “Cuide bem do seu amor”. Ao contrário dos filmes e do desejo popular, se tiver de ser será, etc, o amor é o eterno pique até a porta do elevador fechando. Quer dizer, torça para que tenha alguém lá dentro, que te ouça gritar “segura, por favor!”, e, fundamentalmente, corra na direção dele(a).

Porque amor é vida na plenitude, assim, caminha para a morte, seu mar é o fim. Delicado jogo esse, sobre o arame sobre o abismo sobre o poema sobre a página sob os olhos. Em que aquilo é tudo na vida e ainda se tem a vida inteira – não no sentido de tempo, mas espaço. Por isso o casamento é meia pedra no caminho andado para o andor de barro da dor do fim do amor.

Há que se ter destreza para equilibrar tantos contorcionistas chineses, bigornas de cristal, tratores de papel, jumbos de mel… O amor é tão sinistro que te faz viver por contraste, oximoro velhaco – vide o texto.

O amor é o eixo da desmáquina. O amor é molhar a mão. O amor é qualquer coisa que qualquer um escreva, enfim. E esse é o perigo. E ainda bem. E ainda mal. E aí dá. Mas quem sou eu para falar de Roma?

Um texto

Michel Melamed

Aqui, um dia, restará um texto sobre o fato seguinte: o ato-falho seguinte: no texto outro abaixo, por que não falei sobre o binômio-final-definitivo-máximo “Sorte e coragem”? Na verdade, o texto – se resistir – será sobre o binômio-incrível-espetacular-maravilhoso “Sorte e coragem” e não sobre o fato deu ter esquecido (?!) dele oh que tanto admiro-prezo-respeito-feromônio.

Ps: Ok: e o binômio-valise: “Intensidade”

O beijo

Michel Melamed

A questão é quando forem comprovadas as propriedades medicinais do beijo e, consequentemente, da língua, o constrangimento da família dessa menininha, na fila de espera por uma lambida compatível com seu pequenino coração.

Para Luciana

Michel Melamed

No nosso último jantar
sentamos à mesa e comemos em silêncio (o próprio)
bebemos vinho e não brindamos
só se brinda quando existem planos
naquela noite, naquela mesa
nosso último jantar era a única certeza
alguém que porventura bisbilhotasse nossa janela
veria talheres e copos flutuando sobre as velas
no nosso último jantar
sentamos à mesa e comemos transparentes
alguém que por ventura bisbilhotasse nossa janela
veria a comida sendo digerida dentro da gente
no nosso último jantar
sentamos à mesa e carcomemo-nos
alguém que por ventura bisbilhotasse nossa janela
nos veria por muito pouco tempo

Sobre o Soco e a Borboleta

Michel Melamed

Antes de mais nada, tudo. Porque, diferentemente dos ávidos antropófagos, já garantimos coisas demais. Por isso, se me falam ‘ponto’, pode ser final, g, nevrálgico, de encontro, de macumba, facultativo, de crochê, de ônibus, pacífico, de equilíbrio, aquele cara que segura a fecha dos atores, de exclamação, interrogação, de ebulição, morto, zero... Por isso, se me falam ‘dando’, pode ser dando zebra, dando de ombros, as costas, dando mancada, a volta por cima, mole, certo, a bunda, na vista, bandeira, tudo errado... Essa é a história da borboleta que se apaixonou por um soco . O amor platônico de uma borboleta por um soco. E essa eterna sensação de estar comprando dinheiro, fritando frigideira, cavando barco, fotografando foto, amando a bunda, odiando o ódio, trocando o que já se tem pelo que ainda se tem. JÁINDA. Não se fazem mais ANTIGAMENTES como FUTURAMENTES.

 

A Grande Questão

Michel Melamed

A grande questão a ser respondida pelo homem, não é quem sou, mas o que desejo. Nós somos definidos pelos nossos desejos, pelas escolhas que fazemos influenciados por eles. Mas por que os seres humanos costumam fazer coisas que não querem ou que não sabem que querem? Por que costumamos ser tão cegos aos nosso próprios desejos? Essas são as perguntas que nem Freud nem qualquer estudioso da mente humana jamais conseguirá responder com perfeição. Porque além do nosso grande desconhecimento sobre nós mesmos somos confrontados com o acaso ou um acidente o tempo todo.. Mas ainda assim, perdidos em meio ao caos de uma teia de coincidências, os seres humanos conseguem ter momentos plenos de felicidade e sentido, e é neles que conquistamos a impermanência.

Pedra

Michel Melamed

Com as unhas da espera,
seu cume cego afia-se no céu
cercado pelas curvas da cidade
aguardando sua passagem, pedra
uma esfera arranha seu chapéu

Pedra,
invadindo a sua imagem
seu colar de páginas
na fila das setas secretas
arrebenta com a miragem, pedra
soterrando a revoada perpétua.

Rebecca

Michel Melamed

Há um barco no mar
e só
há um barco no mar
porque há mar
Senão
seria apenas um barco no ar

Há um barco no ar
Porque se não houvesse ar
seria só um barco
só um homem num barco
só um homem sufocando num barco

Casa Comigo

Michel Melamed

Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. a mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada... a mais bem comida. e a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. e a mais festas, viagens, jantares...
Casa comigo que te faço pessoa mais realizada profissionalmente. e a mais grávida e a mais mãe. e a pessoa mais as primeiras discussões. a pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre.
Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. te faço a pessoa mais solitária com um filho pra criar do mundo. a pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. a mais reconstruiu sua vida. a mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente...
Casa comigo que te faço a pessoa mais “casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo”.

O Idioma

Michel Melamed

Que com um simples beijo pode-se aprender um idioma, não há dúvida. Você beija uma chinesa, aprende chinês; chupão no alemão: alemão, um estalinho na francesa: oui.

Hálito Mestiço

Michel Melamed

Em futuro estudo a ser publicado em conceituada revista do meio científico, será comprovada não só a existência mas os índices alarmantes da incidência da cárie cerebral. o fenômeno, que atinge povos de todos os países, tem como uma das suas principais causas, como é de se esperar, os péssimos hábitos alimentares das populações, cultivados, principalmente, através do consumo de enlatados americanos, novelas açucaradas e toda a sorte de (conceitos) embutidos. a fim de evitar a extração do órgão sob risco de sequelas irreversíveis, como por exemplo, o pensamento banguela, recomenda-se expressamente o uso continuo e correto do fio mental. e da escova de mentes. vamos juntos fazer do brasil um país de sorriso branco e preto e mulato e cafuzo e índio e... hálito mestiço!

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