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Criolo

Nascido em um bairro pobre de São Paulo, Criolo adiciona boas doses de sensibilidade ao rap. Suas músicas costumam abordar temas sociais, e o cantor ganha cada vez mais espaço com gravações que agradam público e crítica.

Mais amor, por favor

Criolo

Quando eu digo que não existe amor em SP, estou me referindo a uma mentalidade, de uma cidade que não é construída para seus cidadãos. Não parece que o estado é construído para os cidadãos, nem que a nação Brasil é construída para os cidadãos. Há interesses outros. Às vezes, não é nem o dinheiro, porque tem coisa que é mais valiosa: o ego, o poder. Lida-se com outras instâncias. O nosso povo é cheio de amor. Nosso povo é amado, respeitado e querido no campo das artes, dos esportes. Em qualquer lugar do mundo, o brasileiro é visto como uma pessoa criativa, que se vira. Isso é só o brasileiro que tem. Então, por que esse desamor todo, essa falta de olhar para o cidadão, que é a coisa mais importante da cidade? É nesse sentido que eu digo. Todos os dias, nós estamos tendo manifestações de amor pelo mundo. As manifestações de amor começam dentro de casa, de uma mãe com seu filho, uma avó com seu neto. Começa com a sua história de vida. Muita gente não muda essa história.

Coração

Criolo

Olha, eu acredito que em cada lugar tem alguém com coração. Para cada mil sem coração, existe um com coração. E esse um tem o poder de dar a redenção para os outros mil. Não estou falando desse coração romântico. Falo de alguém que se permite viver, sofrer, enxergar o sofrimento do viver e a beleza que é respirar. Então, acredito que chegou o momento em que essas pessoas se encontraram. Sou apenas mais uma dessas pessoas, mesmo que ainda capenga, mesmo que ainda cheio de situações a serem vistas e revistas. Assim como é cada poeta. É da essência das pessoas querer contribuir, querer fazer parte de algo sem exigir qualquer luz de protagonismo. Já ouviu falar naquele lance de que uma andorinha não faz verão? A andorinha não tem nome, é a espécie. Assim somos nós.

Inadmissível

Criolo, sobre o preconceito contra nordestinos

É deprimente! Deprimente. Deprimente, cara. O que é isso, bicho? Que falta de respeito inadmissível. É vergonhoso, sobretudo por ter vindo de pessoas que se dizem cultas e estudiosas. Não estou entendendo. Ou melhor, estamos entendendo bem e sempre soubemos disso, só que, agora, as pessoas não estão mais disfarçando esse sentimento, deixando apenas em seu quintal.

MPB x Rap

Criolo

Deixo as pessoas à vontade para dar sua opinião. Acho que isso é o mais maravilhoso que existe. [Ser chamado de MPB] Não incomoda, imagina. É maravilhoso.

Sociedade

Criolo

Muito esforço tem sido feito. Mas ainda tem muita coisa para fazer. Demoraram demais. As necessidades emergenciais continuam gritando, e não dá para se fazer nada a médio prazo por aqui.

Samba

Criolo

A gente é brasileiro. Um dos nossos ritmos mais emblemáticos, que a gente cresce ouvindo, é o samba. É uma coisa natural aqui de casa, meu pai sempre escutou muito samba, minha mãe também.

Deixe que digam

Criolo

É muito louco. Porque cria-se a expectativa de que eu fale como eu estou bem hoje. Mas, de dez anos para cá, o número de pessoas falando que eu sou extremamente estranho, errado, maluco, e tanta coisa que eu jamais imaginei de que eu seria taxado, aumentou. Então deixe que elas digam.

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Criolo

Quando você vê os pássaros no ar, tem a impressão de que é um triângulo, de que um está na frente dos outros. Não. Quando o primeiro se cansa, vai lá para trás e vem outro ocupar a dianteira. É muita ingenuidade do poeta, ou do marceneiro, achar que aquilo que ele criou e dividiu com o mundo ainda é ele.

Fora dos palcos

Criolo

Minha rotina é estar perto da minha família. É difícil eu falar assim para você: "pô, vou fazer uma viagem". É muito louco isso porque a gente nunca teve essa felicidade, essa oportunidade de fazer uma viagem, mesmo que seja de fim de semana. Ali pertinho, em um cantinho. A vida sempre foi meio dura pra gente. São culturas, né? Minha vida é muito simples. Gosto de ficar em casa. Gosto muito de encontrar com meu amigo Ricardo Rabelo, com o Nenê Partideiro, o Jefferson Santiago, Rogério Borges. Eles fazem um samba muito refinado lá na 27, e eu tenho alguns sambas também. Eles tiram aquele samba no cavaquinho, e a gente passa a tarde legal. Ficamos conversando sobre a vida, sobre as coisas. Vida muito simples. Um amigo ou outro me visita. Ou eu vou visitar alguém.

Sem pretensão

Criolo

Eu não tenho a pretensão de que as pessoas me compreendam. Isso aí é se achar demais. Meu desejo é dividir o meu pensar. Isso para mim já é tudo. O que vai acontecer é da natureza. Meu desejo é que as pessoas me permitam esse processo de comunicação.

Mundo

Criolo

Eu vejo o quanto é bonito as pessoas acreditarem naquilo que elas acreditam. Eu concordando ou não. Porque é um problema meu eu concordar ou não. E eu devo respeitar a pessoa com sua concepção. Eu acho extremamente importante as pessoas se manifestarem. E depois contarem essa história para os filhos. Daqui a cinco anos, o cara pensar se faria diferente. Isso faz parte do crescimento humano. Da sua mente. De como você enxerga o mundo.

Força interna

Criolo

Às vezes uma coisa que eu acredito que seja de um jeito você vai ouvir e exergar de outro. Mas a ideia é de que todos nós temos uma força interna para gerar coisas boas.

Religião

Criolo

Uma vez eu perguntei para minha mãe: "mãe, qual é sua religião?". Ela falou: "eu gosto de gente". Eu procuro ser parecido com minha mãe, apesar de estar longe de ser.

Berço

Criolo

Meu berço é o rap, sou filho de preto nordestino. Filho de benzedeira que, com 50 anos de idade, se formou em Filosofia. E eu digo que ela é filósofa não pelo diploma. Ninguém é filósofo porque fez Filosofia. Ela é filósofa porque sabe viver a vida. Por si só, todo mundo é um filósofo. Dona Vilani me ensinou isso. É a potencialidade humana. Os quereres, as inteligências, sobretudo as potencialidades. O problema são as potencialidades. Quando as descubro, não sei o que faço. E quando faço, me questiono. O grande lance é se questionar. Porque é tudo muito frágil. O pensar é frágil. O devaneio é forte. Eu sou filho de um senhor que foi metalúrgico a vida toda. E de uma senhora que foi rodomoça, servia cafezinho nas viagens de ônibus. Depois, foi empregada doméstica no Rio de Janeiro. Depois, lavadeira. E, com 40 anos de idade, voltou a estudar. E era benzedeira do bairro por mais de dez anos. E hoje tem mais de oito títulos.

Experiências

Criolo

Eu sou o mais fraquinho da turma. Cresci em um ambiente extremamente hostil, no extremo sul da Zona Sul da cidade de São Paulo. Vi gente morrer na minha frente, de morte matada. Vi amigos me estenderem a mão em um pronto-socorro do meu bairro – eu sabendo que a pessoa ia morrer. Precisei de hospital público e não tive. Senti dor, passei fome. Mas lhe digo isso com coração aberto, não para glamourizar uma história. Eu lhe digo isso para implorar às nossas autoridades que não deixem isso acontecer.

Mitos da MPB

Criolo, sobre Milton Nascimento

O Milton é meu amigão. Ao mesmo tempo que é tudo isso e é meu colega, que eu dou um bom dia, boa tarde, boa noite, a gente conversa de alguma coisa. A gente celebra essa felicidade. Não só ele, mas Caetano também. É sempre uma festa quando encontro com Ney. São pessoas muito simples.

Infância

Criolo, sobre o que costumava ouvir quando criança

O que todo o mundo escutava. O que tocava no rádio. O que era tema de novela. Nada, infelizmente, falo isso com pesar, de ter alguém que tivesse chegado em você e te dado dois, três discos de um cara. Ou te indicar. Ou te dar a fita cassete - na época, era a fita cassete. A gente não tinha essa felicidade, que muita gente tem. Hoje você conversa com um jovem, ou alguém da nossa idade, chegando aos 40. Ele sabe te falar o nome do álbum, o nome do baixista, do cara que produziu. E acho isso lindo. Um trabalho de pesquisa, mas que é natural. Já vem da cultura de uma pessoa. A gente escutava o que o rádio AM pegava. E mesmo assim não tinha muito tempo, porque tinha que fazer o carreto na feira, ou tinha que ajudar o pai não sei onde. Tinha que varrer a casa porque a mãe estava chegando do trabalho. Senão ela ficava louca. São rotinas diferentes para cada tipo de criança de cada lugar do Brasil.

Deserto

Criolo

Se você quiser desbravar o deserto, você tem que saber como é o deserto minimamente. Ou não, ou apenas ir, saber como é o deserto. Aí, quando você voltar desse deserto, se você voltar, você vai perceber que existem muitas coisas por lá e todas essas coisas são você. Agora, como a gente consegue transportar essa linha de pensamento para uma condição de como se enxerga a política hoje? Estamos em um deserto? É tudo coisa da nossa cabeça? Da cabeça de alguém que colocou na nossa cabeça, nas cabeças dos nossos pais? Onde eu estou nisso tudo?

Música é celebração

Criolo, sobre Milton Nascimento

Onde já se viu? Eu, que nunca estudei música, que não sei tocar um instrumento, que desafino mil vezes num show de uma hora e meia, ter a honra de ser convidado por Milton Nascimento para tocar com ele? É ter a generosidade de perceber que as histórias também se encontram. E que música é também para celebrar encontros e passar essas histórias para frente. Possibilidades para frente.

Rap

Criolo, sobre a importância do rap

O rap não só no momento da escrita. Mas o cara do bailinho, que me deu oportunidade de subir no palco e cantar na Associação de Moradores do Jardim Macaná, que foi a primeira vez que subi no palco para cantar um rap. Eu ia cantar no Ester Garcia, num bailinho de colégio, e o cara falou: "olha, o microfone você liga desse jeito". Você vê uma mesa de som, o cara mexendo no grave e no agudo. Tentando tirar uma microfonia de uma caixa de som que foi emprestada. Então não é só o texto. É a solidariedade. O suor de cada dia para conseguir uma oportunidade para cantar num bailinho de formatura no colégio. Então isso também faz parte do ensinamento.

Convoque seu Buda

Criolo, sobre o lançamento de Convoque seu Buda

É uma paz interior. Procurar o equilíbrio, algo positivo dentro de você. Porque, se a gente for deixar se levar por tudo que está acontecendo todos os dias, só vai fortalecer as coisas negativas. A gente vai perder totalmente a esperança na humanidade.

Conquistas

Criolo, sobre abrir o show de Stevie Wonder

Todos os brasileiros têm uma história para contar. Isso não nos faz melhores nem piores do que ninguém. Nossa realidade vigente, na nação. Mas, cara, quando eu subo no palco, passa muita coisa na cabeça. Eu tenho 39 anos de idade agora. Segundo os noticiários do final da década de 1980, início da década de 1990, eu, um jovem que nasci onde nasci, com os pais que tinha, não passaria dos 13, por subnutrição, ou dos 17, por violência urbana. Isso para termos um pouco de poesia, para não falarmos de outra forma.

Chegar aos 39 anos de idade, poder subir em um palco, ser convidado para cantar sobretudo em um evento tão grande, com um grande mestre, maravilhoso, que tive a oportunidade de conhecer. Então emociona muito. Você tem que fazer valer o esforço de todas as pessoas que lhe estenderam a mão.