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Rogéria

Rogéria, que nasceu Astolfo Barroso, é uma atriz brasileira que se considera transgênero. Com mais de 45 anos de carreira, já passou pelo teatro, cinema e televisão, tornando-se - segunda ela mesma - a travesti da família brasileira.

A travesti da família brasileira

Rogéria

Eu sou a travesti da família brasileira mesmo, o cara que é honesto, é artista, e se veste de mulher querendo parecer mulher. Mas uma senhora me parou na rua e disse que não gostava quando me chamavam assim, porque eu era a artista da família brasileira, não a travesti. Aí, com a coisa do transgênero, queriam até que eu mudasse meu nome de homem para mulher. Eu disse, “Ah não, querida, a bandeira desse Brasil sou eu!”. Então, agora, no Instagram e no Facebook, sou Estrelíssima Rogéria Astolfo Barroso Pinto.

Início da carreira em 1960

Rogéria

Olha que tinha ditadura, hein? Não me meti com a ditadura porque eu era um homem vestido de mulher, transgressora. Todo mundo teve de sair, até Caetano, mas fez as
músicas dele. Depois dessa democracia para cá, o negócio foi degringolando, a igreja atacando… E hoje não pode mais fazer nada. Sou de uma época na qual havia colégio público e respeitava-se a professora. Hoje, houve uma regressão total.

Liberdade

Rogéria

Não tenho problema de ser gay, de ser homem, de ser mulher. É uma alegria! Se viesse uma fada e dissesse “Daqui a cinco minutos você vai virar mulher”, eu diria: “Não! Deixa eu estar como estou”. Não quero ter problemas de mulher. Quero ser amiga delas e agradecê-las por estar no mundo, porque saí de dentro de uma mulher. Essas coisas são muito bem resolvidas para mim sem precisar de Freud, Lacan, nada disso. Eu mesma entro dentro de mim e faço uma terapia fortíssima. Até na religião sou bem resolvida. Não adianta pastor querer vir falar alguma coisa que vou dizer: “Sai daqui, querida!”. Já encontrei Jesus desde muito jovenzinho, minha mãe me ensinou a rezar e tenho milagres, mil deles, comigo. Porque essa vida de homem vestido de mulher viajando pelo mundo, ser estrela no Brasil e depois ter de fazer testes na Europa… Só com a graça de Deus com a Virgem Maria. E sou filho de Iansã e Ogum, ainda por cima.

As ruas como redes sociais

Rogéria

Todo mundo me aborda. E eu paro, pois tenho disposição. Se saio de casa no Rio, as pessoas estão sempre me parando, tiro selfies, as senhoras me dão crianças para segurar… É muito carinho, um privilégio.

Religião

Rogéria

Sou catolicíssima. Católica filha de Iansã com Ogum. Aí você vai dizer: “mas é uma incoerência”. Sou católica e tenho um lado espiritual, mas sou São Tomé, preciso sentir.

Vida e humor

Rogéria

Quando brinco, brinco em cima de mim. Não me incomoda piada sobre gays, por exemplo. O que me incomoda é piada sobre santos. Não gosto. Não reclamo, acho graça e me retiro. Porque se eu for acreditar que pastor diz que não temos Cristo interno, eu não estaria viva. É graças aos meus santos protetores que hoje eu sou a Rogéria.

Confusão por conta do esteriótipo

Rogéria

Eu desmistifico na hora! Tenho medo do homem descobrir que sou homem só na hora H. Falo logo ‘você sabe que sou um homem? Não sou operada’. Se a tábua estiver arriada, sento e faço xixi. Se estiver levantada, faço em pé. Nunca fiz análise, portanto. Eu lido assim com minhas verdades.

Propostas inusitadas

Rogéria

Depois de Paris fui para a Espanha em turnê. Era a ditadura franquista. Fiz um sucesso atrás do outro. Até que o empresário do show fez uma proposta que não esperava: ‘Opera-te, Rogéria. Porque você será a grande estrela da TV espanhola’. Nunca pensei em ser mulher, eu adoro ser Rogéria. Falei pro homem que ia tirar férias para ver neve em Paris e voltaria operada. Claro que não voltei. Fui ver a neve.

Sociedade preconceituosa

Rogéria

As pessoas estão mais preconceituosas. A verdade é que não estão estudando, não abrem mais suas cabeças como nas décadas de 70 e 80, por exemplo. Sabe o que me enche de orgulho? Quando uma senhora me para na rua e me diz que adora quando falo que meu nome é Astolfo Barroso Pinto. Isso mostra que nada do que fiz foi em vão.

Ligação com Iansã e espiritualidade

Rogéria

Fui na casa de uma amiga da minha mãe que fez uma imantação, com frutas e comida, para a minha Iansã. Eu estava olhando, achando muito bonito, mas sem sentir nada. Foi quando, de repente, o sofá virou comigo, eu perdi os sentidos e dei um grito. Minha mãe veio, olhou para mim e disse: “Ela já esteve aqui”. Era Iansã. Precisei que minha mãe me desse um toque. Sinto minhas santas e quando faço minhas orações tenho uma alegria no coração, e às vezes até uma lágrima de felicidade. A felicidade da oração. Eu encontrei Deus muito cedo.

Rogéria e Astolfo em um mesmo corpo

Rogéria

Tem gente que não gosta que eu diga que me sinto bem na pele de homem. A Rogéria é uma performance de Astolfo. Não vou dizer que sou uma mulher. Quando voltei de Paris, todo mundo achou que eu estava operada, foi um escândalo. Descobri aquele cabelo em Paris, descobri que era ascendente em Leão e que tinha o cabelo do meu pai. Em Paris, emagreci e o cabelo cresceu. Adoro parecer mulher, e rica! Isso tudo é criação da cabeça de um rapaz chamado Astolfo Barroso Pinto.

Igreja

Rogéria

Vou na Igreja Nossa Senhora do Rosário. Às vezes, preciso de uma missa para tirar
um olho de cima de mim, preciso escutar o padre falar. Mas tudo o que ele fala eu já sei, porque mamãe me falava desde pequeno. Você sabe que Jesus é vida. E mesmo que eu não reze, tenho uma ligação com ele o tempo todo.

Surgimento do nome Rogéria

Rogéria

Foi num concurso de fantasia, em março de 1964. Fiquei em primeiro lugar. E todo mundo queria saber meu nome. O apresentador errou no microfone: “Ele é Rogério, maquiador da TV Rio”. E o povo começou a gritar ‘Ro-gé-ria, Ro-gé-ria...’. Foi o povo quem me batizou.

O que pensa sobre o Trump

Rogéria

Ele é ridículo! Sou geminiana como ele, mas o olho e não vejo nada de geminiano ali. Quer dizer, vejo a garra, como eu. Mas ele é grosso, cafona. Ai, não! É um retrocesso não só no Brasil, no mundo todo. Depois de Obama, o mais chique, o mais fino presidente da América, entra esse cara horroroso e a gente tem de suportar. Mas aí eu digo: “Você já está com 74 anos, querida”. Se tivesse 19 anos, hoje, eu estaria arrasada.

Apoio de Fernanda Montenegro e Bibi Ferreira

Rogéria

Eu não era apenas um gay maquiador, era um artista que cantava. Fernanda me dizia que era preciso talento e vocação. E eu preocupada: “Mas vestida de homem?”. E ela: “Pode ser como você quiser”. Bibi entra nessa história depois, quando a vi no palco fazendo “My Fair Lady”. Foi ela quem me colocou no espetáculo “Roque Santeiro”, cantando com ela ao vivo. É muito atrevimento!

Família

Rogéria

Tive uma família maravilhosa, com uma mãe que nunca me fez uma afronta. Nenhum dos meus 14 tios questionou minha sexualidade. Eu não sofri bullying. Eu que batia em todos os garotos! Brincava de Cleópatra com eles, que me carregavam em cima de uma liteira.

Vida fora dos palcos

Rogéria

Sou péssima dona de casa. Sou cheirosa, asseada, limpa. Mas não controlo a bagunça. Ainda sou do telefone fixo, não tenho celular. Acesso a internet só para ver vídeos. Atividade física? (ela se levanta e alonga os joelhos para encostar os dedos na ponta dos pés. Em seguida faz uns giros de balé pelo camarim). Vejo televisão conversando comigo. Não sou saudosista, mas gosto de olhar para trás e ver que consegui fazer com que as pessoas me respeitassem sendo quem eu sou.

Humanidade

Rogéria

Nosso Senhor não vai descer nesse mundo imundo. Os homens vão acabar com o planeta. Qualquer dia, um desses aperta o botão e destrói tudo.

O porquê de não ter operado

Rogéria

Eu tinha medo de parecer puta ou trava. Tenho que passar por atriz! Passei pelas mãos de Irene Ravache, Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro... Ao invés de colocar em prática o fato de que eu sou mulher, coloquei na cabeça que sou ator. Não é minha cabeça, portanto, estar operada. O que me interessa é o prestígio artístico.