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Sandra Annenberg

Com mais de vinte anos de carreira como jornalista, Sandra Annenberg também foi atriz. Hoje em dia é uma das jornalistas de maior credibilidade no país, a frente do Jornal Hoje.

Acredita em fidelidade e monogamia?

Sandra Annenberg

Eu sou careta, acredito, sim. Não acho que possa ser de outra forma. Acho muito bom ter um relacionamento verdadeiro, uma entrega absoluta, de cumplicidade, companheirismo e parceria, de trilhar junto, lado a lado.

Desafios

Sandra Annenberg

Eu nunca planejei a minha vida. As coisas foram acontecendo. Eu vivo me reinventando, não tenho medo de recomeçar. Adoro o desafio. Mas eu não me planejo: "Ah, agora eu vou dar uma virada’’. Eu vou fazendo um monte de coisas. A virada vem, quando vi, já foi.

As faces da verdade

Sandra Annenberg

Eu acreditava que era possível dizer a verdade, nada mais que a verdade e somente a verdade. Até que fui descobrindo que a verdade tem muitas caras, tem muitos lados, e existem muitas verdades. Até hoje eu busco a verdade.

Arrependimentos

Sandra Annenberg

Eu gostaria de ter viajado mais. Acho que assumi muitas responsabilidades muito cedo. Comecei a trabalhar muito cedo, decidi sair de casa muito cedo, comecei a namorar muito cedo e sempre tive essa coisa precoce de conviver com pessoas mais velhas. Deixei de experimentar coisas na época certa porque eu já estava trabalhando, já estava pagando conta, já era responsável demais.

Fé na humanidade

Sandra Annenberg

Eu continuo sendo uma pessoa bastante crédula na humanidade. Às vezes me decepciono um pouco, mas eu ainda acredito.

Função do jornalismo

Sandra Annenberg

A função do jornalismo na sociedade é manter não só a informação latente, mas a transparência de tudo. Então é não deixar senões, é simplesmente mostrar o que está acontecendo para que um povo bem informado tenha liberdade de escolha. Basicamente é isso, eu acho que é a base da democracia.

Casamento com Ernesto Paglia

Sandra Annenberg

Acho que foi recíproco. A gente se conheceu e se apaixonou. Até hoje temos um casamento de muita paixão e respeito. Eu morro de saudades quando ele viaja, e ele viaja muito.

Crises e dúvidas

Sandra Annenberg

Ah, sempre tem. Imagina, são 20 anos, né? Cada um tem suas crises, suas dúvidas, mas não em relação ao casamento, isso acho que nunca bateu. A gente sempre teve muita certeza de querer continuar juntos. Somos muito cúmplices e muito parecidos. Gostamos das mesmas coisas: viajar, mergulhar, rir e se divertir. Um faz um trocadilho, aí o outro já vem com outro, é como se fosse um desafio.

Quando começou a se sentir mais respeitada como jornalista

Sandra Annenberg

Em 1996, eu fui para o Jornal da Globo, que tem aquele peso de noticiário eminentemente econômico e político. Aí as pessoas começaram a me olhar de um jeito diferente. Eu apresentava o jornal sozinha. Tinha como comentaristas o Juca Kfouri, no esporte, e o Joelmir Beting, na economia, pessoas com uma longa jornada. Eu fui sugando, absorvendo que nem uma esponjinha e aprendendo com eles. Em 2000, virei correspondente e coordenadora do escritório da Globo, em Londres. Aí foi outro aprendizado porque eu tinha que coordenar o trabalho dos colegas e intermediar o escritório de lá com o Brasil, ver que pautas eles queriam aqui, administrar um orçamento internacional, coisas que eu nunca tinha feito antes. Foi um grande desafio. Quando eu voltei, fui fazer o Jornal Hoje com o Carlos Nascimento. Isso em 2002, 2003. Nessa época, comecei a falar: "Mas por que só ele dá o primeiro 'Boa tarde'? Por que só ele começa dando a notícia mais importante do dia? Não seria isso um machismo?". Ali criei uma certa saia justa, porque ninguém antes tinha ousado questionar isso.

Relação com a filha Elisa

Sandra Annenberg

A nossa piada interna é que ela é a cara do pai, mas com a diferença de que é linda! Acho que é uma misturinha: do nariz para baixo é parecida comigo e, dos olhos pra cima, com o Ernesto. E ela tem uma rapidez de raciocínio muito grande. A gente fala uma coisa e ela tem as respostas na ponta da língua. É muito surpreendente e um desafio também, porque educar alguém assim não é fácil, alguém que contesta e argumenta. Mas, afinal, é isso o que a gente quer: colocar gente no mundo que seja argumentativa. Aos 11 anos ela diz que quer ser atriz, vamos ver.

Antes de tudo

Sandra Annenberg

Eu passei no vestibular da Escola de Arte Dramática da USP, que é superconcorrido. Mas fiz pouco tempo do curso, não completei nem um ano porque eu já trabalhava na época.

Redes sociais

Sandra Annenberg

Eu sou bem desativa. Eu tenho Facebook, mas só para os meus amigos. Só aceito quem eu conheço. Não é que ali eu me exponha muito, mas pra mim é um ponto de reencontro. Eu reencontrei muita gente da minha adolescência, da minha infância. As pessoas têm a vantagem de me acompanhar, porque eu estou lá todo santo dia na casa delas, elas estão me vendo na TV, sabem que estou casada, que tenho uma filha. É muito legal poder saber delas também, pra onde elas foram, o que fazem, porque a gente vai se perdendo ao longo da vida.

Assédio dos fãs

Sandra Annenberg

Às vezes a gente está jantando e chega alguém e diz: ‘’Posso tirar uma foto?’’. Eu respondo: "Puxa, posso terminar de comer e depois a gente tira?’’. Acho que é saber lidar com isso. Não é algo que me invade ou me agride. Senão, eu teria que mudar de profissão. Mas, ao mesmo tempo, tem que haver uma compreensão do outro lado.

Que deselegante!

Sandra Annenberg

Eu não quis ser deselegante com o público, então, tudo que eu pude dizer naquela hora foi: "Que deselegante!". Porque aquilo era um absurdo, era um cara empurrando uma repórter ao vivo. Pra que isso? Que contestação babaca! Protesta de outra maneira, sei lá, estica um cartaz, qualquer coisa. Agora, empurrar alguém? É uma violência, você não vai conquistar ninguém fazendo isso.

(Sobre o seu bordão que virou viral na internet).

A juventude e as drogas

Sandra Annenberg

Acho que todo mundo na juventude de alguma forma viu, teve acesso. Juventude é isso. Agora, do alto dos meus 46 anos, eu olho e fico com medo dessa juventude. Acho que a droga no passado tinha um peso contestador, revolucionário, de ir contra tudo que estava ali. O sexo, drogas e rock’n’roll foi a bandeira dos anos 60; a minha adolescência foi muito depois disso, nos anos 80, mas a droga ainda tinha um enfoque libertário. Hoje, pra mim, ela tem o enfoque oposto, que aprisiona. Aprisiona não só quem usa como quem vende e a sociedade como um todo. A violência que existe, em parte, é por causa da droga.

Como foi a estreia na TV

Sandra Annenberg

Minha mãe trabalhava na TV Cultura e, quando não tinha com quem me deixar, me levava com ela. Eu amava. Andava pelos estúdios e falava: "Quero trabalhar com televisão". Tinha um fascínio por toda aquela adrenalina. Aí ganhei de aniversário de 6 anos uma participação num teleteatro baseado na obra Um dia ideal para os peixes-banana, de J. D. Salinger. Na minha única cena tinha um travelling de câmera e eu aparecia atrás de uma treliça, sentada num banco de piano ao lado do ator Luis Gustavo. No dia da estreia, a família toda se juntou para assistir. Todo mundo na expectativa. Mas aí...cadê a Sandra? Foi uma decepção, só aparecia a ponta da minha orelha atrás da treliça!

Precoce

Sandra Annenberg

Fiz tudo muito cedo na vida. Eu vim ao mundo com pressa. Quando minha mãe chegou ao hospital, eu já estava saindo, foi um parto relâmpago. Às vezes tenho a impressão de que já está na hora de me aposentar!

Era que tipo de jovem?

Sandra Annenberg

Eu sempre fui precoce, a mais nova da turma. E trabalho desde sempre, então fui guardando dinheiro. Durante muito tempo fui modelo de comercial, e modelo com fala. Ganhava-se bastante dinheiro com isso, eu fiz muitos comerciais, mais de 50. Com 18 anos, decidi que ia sair da casa dos meus pais e simplesmente fui. Eu já me sustentava.

Primeira vez como atriz

Sandra Annenberg

Era uma minissérie da TV Bandeirantes dirigida pelo Walter Avancini. O Edson Celulari e a Mika Lins eram os protagonistas. Eu perdi a época de inscrição para os testes da novela; quando cheguei, já estava encerrada. Mesmo assim, deixei meu currículo com os contatos. Algumas semanas depois, recebo um telefonema: "Oi, Sandra, aqui é o Walter Avancini". Comecei a rir e falei: "Ah, vai passar trote em outra" e desliguei o telefone na cara dele. Imagina, ele era o papa da direção de dramaturgia, todo mundo queria trabalhar com ele. Aí ele ligou de novo e falou: "Olha, Sandra, não desliga. É o Walter Avancini mesmo e estou te ligando porque tive um problema com uma das atrizes e pensei em você para substituí-la". E lá fui eu de Kombi de São Paulo para São João Del Rey, em Minas Gerais. Quando cheguei lá, o Walter me perguntou: "Você já fez alguma cena nua?". Eu respondi: "Nunca fiz uma cena, quanto mais nua!".
(Contando como foi a história de gravar uma cena nua com o Edson Celulari na novela Chapadão do bugre).

Como conheceu o marido Ernesto Paglia

Sandra Annenberg

Ele era repórter do Fantástico e eu, apresentadora. A gente conviveu na mesma redação durante muito tempo. No meio jornalístico, a gente brinca que "jornalista só se reproduz em cativeiro". Porque é uma profissão tão absorvente que você acaba não convivendo muito com gente de outros meios.

Opinião sobre aborto

Sandra Annenberg

Sou a favor, acho que a mulher decide o que fazer com o corpo dela. Mas o mais importante não é você tratar com "ok, sou a favor" e ponto. É preciso oferecer educação sexual na escola, falar sobre prevenção, disponibilizar preservativos e serviços de saúde feminina, como exame de papanicolau, ultrassonografia, mamografia. É preciso ter uma rede de saúde trabalhando em conjunto com a de educação. Descriminalizar o aborto é apenas o fim de toda essa história.

Desmitificação do sexo

Sandra Annenberg

Não se falava. Era o começo dos anos 80, não existia um programa na TV como o Amor & sexo. Era um grande tabu. Eu sempre fui muito a favor de desmitificar tudo: sexo, o que pode e o que não pode. E, nessa época, eu era mais cara de pau. Quando se é jovem você se lança mesmo.

Trabalho de formiguinha

Sandra Annenberg

Essa conquista foi um trabalho de formiguinha, etapa por etapa. Eu me lembro de quando eu fazia o São Paulo Já, antecessor do SP TV. Era apresentado pelo Carlos Nascimento, pelo Rodolpho Gamberini e por mim. Mas a mim só cabiam os assuntos leves: comportamento, moda, culinária, essas coisas. Aos poucos, eu falei: "Gente, eu posso falar de outra coisa. Estou me tornando jornalista para isso".
(Sobre o papel ativo na conquista de espaço das mulheres no telejornalismo)

Relação com os fãs

Sandra Annenberg

É esquisito virar notícia. As pessoas olham pra gente e confundem com o artista da novela. Estamos na mesma tela, é uma programação contínua, vem o jornalista, depois vem o artista, depois o jornalista de novo. Mas artista é artista e jornalista é jornalista. Eles lidam com a ficção e nós lidamos com a realidade. É claro que eles me veem como uma pessoa famosa porque estou todo dia na TV e eles me reconhecem. Quando uma pessoa chega para falar comigo, eu vejo nela o reconhecimento ao meu trabalho. E brinco: "Continua me assistindo para eu manter o meu emprego’’. Porque é disso que a gente vive, da audiência de televisão, do nosso público, do nosso consumidor. Sou muito grata a eles.

Trabalho e faculdade

Sandra Annenberg

Quando eu entrei na Globo, eu ainda não era formada. Prestei vestibular para o curso de jornalismo da Fiam, entrei e percebi que ali era o meu caminho. Então eu fazia o Fantástico no domingo à noite no Rio, pegava o primeiro voo da ponte aérea na segunda-feira e ia direto para a faculdade, em São Paulo. Fazia questão de não faltar porque eu não queria ouvir ninguém dizer: "Ah, porque ela é apresentadora do Fantástico ela acha que pode faltar". Sempre fui super-CDF em tudo. Cursei os quatro anos com toda dedicação.

Tempos de ditadura

Sandra Annenberg

No auge da ditadura, eles ajudaram muita gente a se esconder ou a fugir para o exílio. Meu passeio de fim de semana era visitar presos políticos. Estudei com o Deco, filho do Vladimir Herzog, e me lembro de quando o pai dele desapareceu. Tudo isso é muito vivo na minha memória.

(Sobre seus pais ajudarem os amigos na época da ditadura militar do Brasil).

Primeiras experiências

Sandra Annenberg

A gente saía e perguntava na lata aos passantes: "Você é virgem? Você gosta de se masturbar?".

(Sobre o programa Crig Rá, dirigido pelo Fernando Meirelles e transmitido na TV Gazeta, e fazia uma série de perguntas sobre sexo nas ruas).

Filosofia

Sandra Annenberg

Eu nunca digo nunca. A minha filosofia é a do Zeca Pagodinho: "Deixa a vida me levar".

Política

Sandra Annenberg

Vi pessoas queridas brigando de um jeito feroz, raivoso. Essa polarização é ruim. Não pode ser ou é branco ou é preto. Um extremo ou outro extremo. A gente tem que dialogar, pensar no país, no futuro. A gente tem que trabalhar pra isso, depositar menos a responsabilidade nos políticos e nos governos e assumir mais a nossa parte. Tá na hora de o cidadão arregaçar as mangas. É muito fácil tirar todo o peso dos seus ombros e transferir para os outros.

Profissão

Sandra Annenberg

Existe um jeito de se comportar que é o que a minha profissão me exige. Não sou artista, sou jornalista.

Drogas

Sandra Annenberg

Sou a favor da descriminalização do porte de maconha em pequenas quantidades para uso pessoal – não sei quanto, isso tem que consultar especialistas. Compactuo com o discurso do Fernando Henrique Cardoso, acho que é por aí, mas fico cheia de dedos. Quando a gente fala da maconha, é só um tipo de droga. Mas tem o crack, a cocaína, as drogas sintéticas e outras que eu nem conheço. Droga pesada é outro tratamento.