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SP Invisível

Um movimento criado com a iniciativa de abrir os olhos e a mente através das histórias dos invisíveis para motivar as pessoas a terem um olhar mais humano. Conheça o projeto!

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Reginaldo Lima

Eu fiquei na rua uns 5 ou 6 anos. Hoje moro aqui no albergue. Meu nome é Reginaldo Lima e tenho 62 anos. Sou lá de Paulo Afonso na Bahia. Vim pra cá e vivi 18 anos com a minha mulher até vir pra rua.
Eu vivia bem e amava muito ela. Temos um filho e uma filha, mas um dia meu dinheiro acabou e ela me largou. Entrei numa depressão enorme e aí voltei a beber, coisa que tinha parado faz tempo. Comecei a beber e a fumar com 18 anos, pior idade pra começar um vício. Hoje parei com a bebida de vez, mas o cigarrinho continua.
Teve um dia que eu bebi até cair duro e acordei só no hospital com um problema que minha perna não mexia nada. Quando eu saí de lá na cadeira de rodas, peguei o ônibus errado e fui parar lá no Largo da Batata. Depois disso, fui pedindo ajuda pra me empurrarem até aqui no Albergue. Durante muito tempo, eu dormia no albergue e na rua. Agora tenho meu leito fixo.
Pode tirar uma foto, desde que não quebre a câmera.

Carlos Eduardo

Meu nome é Carlos Eduardo. Eu sou lá do Rio de Janeiro e to aqui há dois meses. Eu tive um problema com cocaína, mas chegou um dia que eu não conseguia mais viver naquilo e tinha que melhorar e pensei ‘ou é problema meu ou do lugar’, então eu mudei de lugar, fui pra Niterói e parei de cheirar.
Lá em Niterói, eu conheci a música. Eu escrevia umas letras, aí um dia um cara do funk pesadão me chamou pra cantar no baile funk. Só que eu era mais do funk melody, não do pesado. A primeira música que eu escrevi foi pra reconquistar minha ex, hoje já tenho mais de 200 composições. Cinco já estão registradas, meu sonho é gravar um CD.
A inspiração vem do coração, mas também dos momentos. Outro dia peguei um jornal e vi uma agenda festas juninas, na hora eu imaginei minhas músicas tocando lá e compus algumas letras de música junina.

Logan

Eu era um cara inteligente, mano. Só que teve um dia que eu caí do trem quando ia fazer um assalto e aí fiquei em coma. Entrei no crime aos 9 anos, foi quando eu vim pra rua. Hoje, graças à Deus, meu coração mudou e o Logan de hoje só quer amar o próximo e fazer o bem.
Eu sou mó humildade mano, se você passar um dia aqui na Augusta com frio, pode crer que eu tiro minha blusa e te dou, mesmo sendo a única. Tive muito prejuízo na vida do crime, isso me atrasou. A gente consegue ter o que quer. Se você me chamar pra roubar aquele carro, eu sei como abrir, mas não preciso disso. Não vai me fazer bem.
Meu filho me ajudou muito na minha recuperação. Ele tem dois anos, o Matheus. Saí da cadeia em 2012 e não voltei pra essa vida por causa dele. Ele mora com a minha ex-mulher, mas ela deixa eu visitar todo dia. Roubar me afasta de Deus e de mim mesmo.
Pô, você vai me ajudar a tomar um banho? Gratidão mesmo em, Deus abençoe.

Wagner

Meu nome é Wagner. Meu sonho é o sonho de todos os brasileiros, é um país mais justo. O governo não me ajuda, só me fodem. Isso me inspira a fazer arte. Só falam, não fazem nada e falam merda sem legenda e sem pi. Antes eu pagava R$5,00 nas telas, hoje pago R$7,00. Antes, pagava R$4,50 nas tintas, hoje R$5,00.
Além disso, os caras ainda cobram mais impostos. Aumentam a luz, a água, tudo. Porém, no cigarro que eu compro, já tá lá o querosene do jatinho do político, a bolsa da mulher dele, a faculdade do filho dele em Miami e a água Perrier que ele toma.
Quando faço minha arte, penso nos outros, quero levar arte pra todos os que são invisíveis e não podem ter arte no dia a dia. De que adianta ser artista só pra ter carrão, dinheiro e só me representar? Eu tenho que representar quem eu amo e quem me ama também. Faço a arte pensando no filho da dona Maria que mora na zona leste, trabalha o dia todo e não consegue ir ao museu.
É difícil, mas vamos à luta. Tudo o que você fizer de bom, que leve à libertação da mente de uma pessoa, vão tesourar porque eles não se interessam em ter uma população culta
Lá no Rio ninguém investia, aí vim tentar a sorte aqui e to há quatro meses na rua. Eu tenho minhas letras, um microfone e uma caixa de som. Quero uma oportunidade pra gravar minhas músicas, to até mandando carta pra TV.

Kiko

Pode trocar ideia de boa, mas você vai mostrar o que a mídia não mostra ou vai fazer igual a eles? Eles ajudam um pobre aqui no centro, outro em outro canto, um só em cada lugar do Brasil e aí parece que eles fizeram o bem pra todos os pobres do país. Faz todo mundo chorar, parece que é boazinha, mas lucra até e a situação fica igual.
Eu me chamo Kiko da rua. Fico aqui uns três meses, depois volto pra casa, fico uma semana e volto pra cá. To nessas há seis anos. Faço isso por causa da droga né, ela acaba com a gente. Conheci devido às amizades ruins na adolescência perto de casa.
O mais foda daqui é você aprender a experiência, aprender a olhar na bola do olho, respeitar e ser respeitado. No centro de São Paulo, tem que tá preparado pro bem e pro mal. Você quer fazer o bem, mas às vezes o mal te persegue. A saída é Deus.
Não rola preconceito não, rola medo. O pessoal acha que a gente é psicopata. Antes eu roubava essa galera com medo, hoje parei com isso. A cadeia é muita treta. Sabe, aqui falta muito respeito e amor. O fato de alguém morar na rua e o outro num apartamento, já é um desrespeito.
Você é um cara inteligente, mas tem que perder essa vergonha. Fala mais, você só ouve.

Roger

Vocês estão com fome? Bom, eu não tenho uma comida muito saborosa para oferecer a vocês. Tudo que eu tenho é uma panela de miojo com algumas formiguinhas de tempero. A comida pode até ser de má qualidade, mas Graças a Deus, eu nunca passei fome.
Meu nome é Roger, tenho 62 anos e 20 de rua. Moro na rua e quero sair logo daqui. Ela já me fez muito mal. Já apanhei de madrugada e já fui roubado sem nem poder me defender. Mesmo assim posso falar que a rua me educou.
Antes eu tinha uma família, só que eu roubava carros para tirar uns trocados por fora. Fiquei 8 anos na cadeia pensando nos meus erros e lutando contra o meu arrependimento. Saí de lá meio revoltado, resolvi me aliviar no crack e de vez em quando na maconha. Com essas atitudes eu perdi o que era mais valioso para mim: a minha família. A única pessoa que me ajuda é a minha irmã. Não a procuro muito, tenho vergonha de me apresentar desta forma. Eu ainda tenho esperança que irei preencher o vazio que há dentro de mim. Sair da rua é a minha meta.

Luiz Viana

Já puxei carroça pelo Brasil todo, do Rio Grande do Sul ao Amazonas. Meu nome é Luiz Viana, tenho 76 anos e 40 de reciclagem. Trabalhei também em várias outras coisas antes, mas o que eu mais gosto é de ser catador,
Fui caminhoneiro, fui cortador de cana e também já trampei em um monte de construtora. Sou pernambucano, lá eu era cortador de cana bem novinho. Depois fui pro Ceará, onde eu trabalhei de caminhoneiro até eu virar o caminhão depois que o efeito do rebite acabou. Depois disso, meu relacionamento acabou, meus 4 filhos ficaram no Ceará e eu fui ser catador pelo Brasil todo.
Hoje, eu moro lá na avenida Pacaembu em um depósito de uma empresa. O pessoal confia em mim lá, moro lá faz dez anos. A vida de carroceiro não é fácil, tem até uns motoristas que jogam o carro pra cima da carroça. Já aconteceu isso comigo umas dez vezes. Um amigo meu até quebrou a perna
Já tive vários sonhos, hoje eu só sonho dormindo. Quando eu era camelô e morava com minha mulher, sonhava com ela um sonho pra gente. Depois de terminar e dois filhos dos seis filhos morrerem, não sonho mais não. Pelo menos não faço coisa errada, tem gente que já se perde depois que acontecem essas coisas.

 

Wilson Correia

Eu moro no mundo, durmo em qualquer lugar. Meu nome é Wilson Correia. Tenho 53 anos e 10 anos de rua, vim lá de Sorocaba, mas nasci em Ibiúna. Vim parar aqui por causa de uns problemas em casa com minha mulher.
Já casei e divorciei algumas vezes, tenho três filhos. Eu ganhava muito pouco e não dava pra sustentar a casa com o meu salário, a gente sempre brigava por isso, então eu vim pra rua. Meus filhos, a mais velha tem 28, o do meio tem 26 e a mais nova 19. Tenho muitas saudades deles.
A vida aqui é difícil, só Deus sabe como vai ser o amanhã. O mais difícil é que algumas pessoas que passam não olham pra gente. O pessoal não para pra ajudar, quanto mais conversar com a gente.

Agnaldo

A gente morava em três. Era eu, meu amigo aqui dormindo e o presidente. Ele morreu meses atrás com 88 anos e aí a gente fez essa homenagem pra ele aqui na parede. Se ele tivesse vivo, aí você ouviria história desde 1935 de um corintiano roxo. Ele é meu pai, meu amor. Meu nome é Agnaldo, faço 45 anos dia 20 de setembro.
Eu vim pra rua faz três anos por causa do crack, mas por incrível que pareça eu consegui vencer e hoje só luto contra o álcool. O que me motivou a parar com a pedra foi o nascimento do meu filho. Ele tá com dois anos, eu ainda o vejo. Ele mora com a avó dele, mas eu visito ele na creche.
Toda vez que eu chego no portão, ele já abre um sorrisão. Teve um dia que foi um palhaço lá na escola e eu ria mais que ele, parecia duas crianças. Eu também canto algumas músicas pra ele do Legião Urbana, meu sonho é sair da rua, largar o álcool e morar com ele. Por enquanto ele tá bem com a avó dele, a diretora fala que ele é o mais obediente. A mãe tem problemas de saúde.
Aqui tem um pessoal que ajuda, mas tem que ficar esperto porque a gente não sabe a intenção das pessoas. Tem uma comunidade espírita que sempre me traz comida, teve até jogador de futebol que já me deu uma atenção. O Valdívia outro dia me pagou um Chivas quando eu pedi uma pinguinha pra ele.

Nailton Pereira

Sou baiano lá de Ilhéus, a terra mais linda do Brasil, terra de Gabriela Cravo e Canela de Jorge Amado. Meu nome é Nailton Pereira, tenho 56 anos. A história é longa, se eu for afundo, a gente fica aqui dia e noite. Meu sonho é sair dessa miséria que é a rua.
Eu e meu irmão tínhamos um caminhão. Fiquei um mês fora de casa, quando cheguei às duas da madrugada, vi minha mulher com um cara por cima dela na minha cama. Não pensei duas vezes e matei os dois. Peguei cinco anos de cadeia em Taubaté devido ao meu comportamento, era pra eu ter ficado 10.
Depois disso, a vida foi só desgraça. Vivo aqui na rua há 20 anos fazendo uns bicos. Aqui a gente se vira de galho em galho. Só que isso tudo é muito frio, muitos sorriem pra você, mas lá no fundo daquele sorriso tem muita tristeza.
Tenho nojo daqui. Aqui é um inferno, mas eu procuro viver igual Jesus. Ele era um cara que nunca criou problema e resolvia problemas, sempre ajudava o outro. Ele é meu verdadeiro amigo e sem amizades sinceras, você não chega em nenhum lugar. Apareçam mais!

Charlie Brown

Os caras aqui me chamam de Charlie Brown né jão. Tenho 27 anos e moro há oito aqui na barra funda, mais ou menos. Só que eu moro na rua desde os 14. Vim pra cá por causa da minha família. Eu fui adotado e brigava com a minha mãe direto.
Não é porque você é novo que você não tem problemas. Eu tenho seis irmãos. O único que ela não consegue nem olhar na cara, sou eu. Meu pai morreu num acidente de moto durante a gravidez dela. Ela entrou numa depressão por causa disso e me odeia pelo resto da vida.
Depois de várias brigas, fui morar com um homem que me adotou que virou meu pai. Só que teve um dia que ele pirou e aí fiquei com a minha avó até ela morrer. Quando ela morreu, vim pra rua.
O dia mais feliz aqui é quando eu visito a Isabela, a minha sobrinha. Ela é filha do meu amigo. A gente se diverte e se ama, o pai dela morre de ciúmes. Ela faz eu esquecer todos os problemas, ela fala pra mim ‘o titio é lindo’.
Uma coisa que aprendi com a minha avó é nunca fazer o mal pra ninguém. A dica pra viver aqui na rua é respeitar e amar o próximo como a si mesmo. Quantos anos vocês tem? Vocês são jovens pô, mas pode pá que o respeito não é pela idade, mas é pelo o que faz. Se você corre pelo certo e faz o bem, você vai ser respeitado.

Dayane

Esse é o Micael, o Joaquim, o João Pedro e a Cassiane. Eles são meus filhos e andam comigo na carroça, meu nome é Dayane. A gente mora lá na ocupação Prestes Maia, na luz. Eu tinha minha casa, mas a subprefeitura pra fazer um serviço de esgoto que deu errado e me mandaram pra um albergue.
O pai não aguentou e foi embora. Eu tinha um emprego no H.C. e eles ficavam em casa, mas tem uma doida lá que vira e mexe, ,coloca fogo no quarto dela, imagine eu não to lá e a ocupação começa a pegar fogo? Então eu pedi demissão e comecei a puxar carroça com eles. Esse ano vou conseguir colocar eles na creche e aí vou arrumar outro emprego.
Eu já tive um sonho de conseguir uma casa, hoje meu sonho é totalmente pra eles, quero ver eles bem. Nosso trabalho é muito digno e útil, sobrevivo com meus quatro filhos da reciclagem, mas é muito desvalorizado.

David Gonçalves

Meu nome é David Gonçalves, tenho 57 anos e não faz muito tempo que to aqui, faz uma duas semanas. Eu morava no albergue aqui do lado, no Boracéia, mas roubaram minhas coisas várias vezes e aí decidi sair. Sou mais feliz na rua do que no albergue.
Meus pais morreram faz tempo, antes eu morava com um primo meu, mas ele não é muito próximo, só dividia a casa. Sempre fui catador, só trabalho se for pra mim, é bem mais prazeroso do que trabalhar pros outros.
Eu não antecipo a vida não, vivo um dia de cada vez. Faço artesanato pra passar o tempo. Vamos viver o hoje né. Aprendi isso em alguns livros.
Vocês devem ouvir muitas coisas tristes, mas essa é uma ideia muito boa. Que bom que foi colocada em prática. Vejo várias ideias boas, mas é bem difícil colocar uma ideia em prática. Se fosse eu, iria contar umas histórias mais alegres.

Alan

Agora eu queria tá na rua com os outros meninos, lá em Guaianazes onde eu moro. Meu nome é Alan, tenho 13 anos. Moro como a minha avó e meu tio. Meus pais são divorciados, mas não gosto de morar com nenhum porque eles não deixam eu brincar na rua até tarde, tem hora pra dormir então fui morar com minha avó.
Ela é diarista, tem 56 anos. Com o dinheiro que eu ganho aqui, ajudo na casa dela. Pessoal não dá muito, dá pra juntar uns 50 por dia, no máximo. Depende do coração de cada um que tá dentro do carro. Se eu tivesse lá dentro, eu daria pro menino do rodo e do malabares.
Nunca ouvi falar desse negócio de redução da maioridade penal, não. Meu colégio não é muito bom, eu gosto de zoar e jogar bola só. Mas pelo o que entendi, não é uma coisa boa né?! Não sei.

Lucas

To há quatro anos e meio na rua, desde pivetão. Tenho 17 anos hoje, meu nome é Lucas*. Vim aqui por causa do meu pai. Ele bebe demais e sempre queria bater em mim. Não tinha como ficar lá e aí eu vim pra cá. Minha mãe era muito amorosa, a melhor pessoa do mundo, só tenho lembranças boas dela. Só que quando ela morreu, a casa virou inferno.
Aqui eu vivo sozinho, não dá pra confiar nem na própria sombra. Gosto muito de ficar andando, lendo, ouvindo um RAP e fumando um beck. Não bebo, nem uso mais nada. Fico sempre entre essa região dando uma caminhada: República, Paulista, Roosevelt... O mais difícil é a fome aqui.
Hoje mesmo, uma mina foi tirar uma foto na doceria aqui do lado. E aí fui pedir uma bolacha pra ela. Ela disse assim, ‘um menino como você tem que passar fome mesmo ’. Na hora eu pensei, desculpa a palavra de baixo calão, ‘essa menina tem que se foder muito na vida pra aprender’.
Meu sonho é ser analista de sistemas. Um outro sonho mais próximo é jogar um Playstation. Nunca joguei videogame. Também quero ir um dia pra Washington. Outro dia li sobre a cidade e me interessei muito.

Marcelo

E aí beleza? Meu nome é Marcelo*. Meu pai morreu quando eu era muito criança e é a minha mãe que cuida de mim. Ela trabalha no ministério público, ela é auxiliar de limpeza, me orgulho muito dela e sei que ela se importa muito com o meu futuro. Tenho 5 irmãos, eu curto bastante brincar com eles. Meu sonho é ter um Playstation e ter um bom emprego. Quero ser juiz pra ganhar muito dinheiro, me sustentar e sustentar a minha família. Me disseram que se eu roubar uma bolacha eu vou ser preso, é verdade? Parece que querem reduzir um negócio que se chama maioridade penal. Eu nem me preocupo com isso, eu sei que eu nunca vou ser preso, não faço nada de errado.

Mateus

A gente tava sentado no ponto de táxi e o guarda falou que ia bater na gente se a gente não saísse de lá. Então eu vim passear no shopping, mas não deixaram eu entrar. Não sei porque, deve ser por causa da minha roupa ou do meu pé. Meu nome é Mateus*, tenho 11 anos.
Eu moro lá na favela do Moinho. Sabe aquela favela que fica pegando fogo? Moro com a minha mãe e meus irmãos. Meu pai batia nela quando eu era criança e aí ela fugiu com a gente. Eu não conheci ele. Minha mãe é muito boa, ela dá muito amor pra gente e trabalha muito pra gente comer. Ela é auxiliar de faxina.
Tenho um irmão grande de 15 anos, ele que fez o Facebook pra mim. Não sei mexer muito não, não converso com ninguém, nem posto nada só uso pra jogar alguns joguinhos. Só que a gente não tem computador. Eu uso no Sesc Bom Retiro ou no shopping quando me deixam entrar.
Meu sonho é comprar um celular com muitos jogos pra não precisar ir no shopping pra brincar no celular. Quando crescer, quero trabalhar com telemarketing porque amo usar o telefone. Você conhece o dono do Facebook? Pode pedir pra ele dar um celular com jogo pra gente?

Gilberto

Eu fiquei conhecido por ser aquele morador de rua que devolveu quase 3 mil cheques. Meu nome é Gilberto, só que eu sou conhecido aqui como ‘Maivei’, é o diminutivo de ‘mais velho’.
Em 2007, eu tava catando latinha e de repente achei várias folhas de cheque numa caçamba, tudo assinado de pessoa física e jurídica. Tinha de 100 reais até quantia que dava pra comprar um carro, tudo preenchido.
Na hora eu tremi muito e saí andando com aquele bolo de dinheiro até um lugar mais calmo. Eu não sabia o que fazer. Como sou evangélico, fui ver a resposta na Palavra e abri e fechei a Bíblia 7 vezes no mesmo versículo, ‘de que vale o homem ganhar o mundo e perder a alma’. Vi que não era coincidência e fui na delegacia devolver. Hoje to com a consciência limpa e devolveria de novo, mesmo sabendo que eu seria bilionário.
Pelo menos, a imprensa e o governo abriram o olho pro morador de rua. Ainda não tá bom, mas tá melhor. Eles gastam mais purificando o Rio Tietê do que purificando o ser humano. O rio é importante, mas e o morador de rua? Esse outro programa também: eu queria entrar nesse negócio, mas só empregam como varredores. Queria ensinar minhas habilidades. Precisa ver pra quem o braço tá aberto.

Jorge

Se vocês conseguirem, falem isso pro Fernando Haddad, pro Eduardo Suplicy , pro Geraldo Alckmin... Meu nome é Jorge. Você consegue uma barraca ou uma roupa de pessoas voluntárias e aí vem o Estado e toma as coisas pra eu voltar pro papelão. Tudo bem que eu não sou dono da rua, mas onde a gente morava, lá no Espigão, eles invadiram e tiraram todos de lá e também não deixam acampar na rua.
Aqui perto dormia o Wagner, inclusive ele já me falou do trabalho de vocês. Depois que a prefeitura levou todas as artes e tintas dele, ele sumiu. Não é qualquer um que se dispõe a conversar como vocês, eles passam indiferente.
Eu perdi meu documento, mas to afim de um emprego, só que também não é só com emprego que você tira uma pessoa da rua. Precisa de todo um acompanhamento para as necessidades fisiológicas e psicológicas. Não são só problemas financeiros.
Existem pessoas que não querem sair da rua, pessoas que querem e pessoas que precisam. Tá vendo a Maria ali no chão? Ela precisa. Ela já desistiu dela mesma, precisa de mais ajuda que eu. O problema dela já é espiritual e psicológico, não só físico, habitacional e financeiro.
A classe média tá tomando o lugar do pobre, o pobre do miserável e o miserável só se fode. Um tiro na Paulista vale bem mais que um tiro em São Miguel. Um tiro em você vale bem mais que um tiro em mim. Eles não querem que você fale comigo. Preferem dar comida pro cachorro do que ajudar as pessoas que estão na rua.

Arlindo

Já trabalhei até no circo, eu apresentava o pessoal, falava assim, ‘alô pessoal, senhoras e senhores, jaja vocês vão ver mais uma atração do circo. Primeiro, o palhaço Serelepe, depois vem o show da comédia. Não percam!’
Hoje, trabalho pegando reciclados, assim eu mantenho a forma, tem vezes que pego até geladeira, tenho 45 anos e vim pra São Paulo faz 22 anos, sou lá do sertão do Pernambuco, morava em Taracatu. Meu nome é Arlindo.
Fui casado durante 10 anos, vim pra cá com ela. Hoje, a gente é separado, ela mora em Osasco com minhas duas meninas e meu menino de 18. Ele quer vir me visitar, mas ela não deixa porque acha muito perigoso, aí tenho que ir até lá.
Aqui, a gente tem que buscar a proteção divina. Tenho que reclamar de nada, sou livre, tem um pessoal que me ajuda, os restaurantes dão comida, me dão roupa, fico ouvindo um forró no meu radinho. Só é difícil o dia que chove.

Agostinho

Eu não tenho nada pra falar não, meu nome é Agostinho. Tenho 74 anos, vim pra cá com 20, sou lá de Cruz das Almas, na Bahia. É uma cidade grande, perto de Santo Antônio de Jesus. Lá na minha cidade tem a época da guerra das espadas que o pessoal solta fogos na rua, é conhecida.
Moro lá em Guaianases com a minha segunda mulher, tenho 12 filhos do primeiro casamento e duas meninas com essa, uma delas tem um ano. Alguns filhos estão aqui, outros no Norte, às vezes ligo lá pra saber como estão, até falo com a minha ex, mas não quero voltar. Uma parte dos nomes eu lembro, outra não, é muito filho.
Tenho 54 anos de São Paulo, tamo aí lutando. Minha mulher fica em casa e eu vendo ferro. Compro e revendo, tem um pessoal que me liga pra buscar nos lugares e eu vou.
Meus amigos falam pra eu parar de trabalhar porque to velho, mas eu não vou parar não, é melhor do que ficar em casa da TV pra cozinha. Aqui converso com um, com outro e o tempo vai passando.

Danilo

Quando eu vou pra escola com meus amigos, os caras falam: ‘Ei, moleque. Quer trampar na biqueira?’. Já tive muitas chances, mas eu não aceito não. Meu nome é Danilo, tenho 14 anos e to aqui no farol há dois anos. Venho de Sexta-feira e Sábado.
Durante a semana eu estudo, nunca repeti não, to no primeiro ano. Eu moro com o meu pai, ele é pedreiro, mas minha mãe mora do lado de casa. Eles são divorciados. Com o dinheiro que junto aqui, consigo ajudar na casa dela porque ela foi demitida.
Quero ser bombeiro, esse é meu sonho, quero salvar vidas. Se eu pudesse, acabaria com o tráfico lá da minha quebrada, tenho amigos que foram presos desde pequeno usando droga e traficando. Eles são meus amigos, mas fizeram coisa errada, tem que ser presos, poderiam ter vindo aqui comigo ou arrumado outro trampo.
Além de ser bombeiro, meu sonho é ter um carrão tipo esse que tá passando ou um iPhone que nem o seu, tio. Só que eu tenho que estudar né. Pra ter as coisas, ou você estuda e trabalha ou é jogador ou faz coisa errada.

Ulisses

Eu gosto daqui da rua, fico sempre com o Alemão. As pessoas me tratam bem e com respeito. Diferente do orfanato onde eu ficava, lá os meninos me batiam e me zoavam muito. Já fugi daquele lugar duas vezes. Numa delas, o guardinha me viu e me levou de volta. Agora desta vez, ninguém me pegou.
Meu nome é Ulisses (nome fictício). Eu acho que tenho 11 anos e não tenho pai, nem mãe. Lá no abrigo, disseram que eu tinha 11, mas na verdade eu nem sei a data do meu aniversário. O Alemão é meu melhor amigo aqui na rua. Ele me prometeu que iria tentar me tirar da rua e me colocar na escola. O Alemão é como um pai pra mim, ele me ajuda, me protege e deixa eu ajudar ele na barraquinha onde ele trabalha. Meu sonho é estudar, trabalhar e andar de carro. Eu nunca andei de carro, nem de ônibus. Deve ser muito legal. Vocês vão tirar foto de mim? Posso ficar naquele parede com desenhos?

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