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Fiat Luz

Antonio Prata

Houve uma época em que a noite era dos gatos e dos gatunos. 24 H eram três caracteres lidos apenas em luminosos de hospitais, clínicas dentárias em sobrelojas e uma ou outra borracharia – geralmente, bem distante de nosso pneu furado.
Não sei bem porquê, mas não passava pela cabeça de ninguém, até o final da década de oitenta, vender máquinas de lavar, vatapá ou livros de administração muito depois do horário comercial.
Tudo mudou na noite em que o Rodolfo, um amigo do meu pai, chegou tarde à nossa casa, cheio de sacolas. Entusiasmado, nos explicou de onde vinha: “chama loja de conveniência! Vende tudo, a qualquer hora! Se você tá voltando de uma festa, por exemplo, três da manhã, e lembra que tem que comprar sabão em pó...”. “E quem vai querer comprar sabão em pó às três da manhã, Rodolfo?!”, cortou meu pai, mostrando muita sensatez e nenhum tino comercial.
Foi mais ou menos nessa época que começaram a vender produtos pela TV, de madrugada. Didi Seven, um alvejante capaz de transformar carvão em marfim; Facas Guinsu, a melhor maneira de serrar pregos e sapatos; meias-calça Vivarina -- se um maníaco te atacasse com um garfo, as meias ficariam intactas. Os anúncios passavam entre pornochanchadas e programas evangélicos, sugerindo que Deus, sexo e bugigangas estavam competindo pelo monopólio de nosso tédio, nossa solidão.
Dali para a frente, tudo mudou. Fogão, rabada, samambaias, golden retrievers, Proust completo: não há quase nada que se compre ao meio dia que não possa ser encontrado a meia-noite. Acho ótimo. Vira e mexe, faço compras lá pelas duas da manhã. A salsinha costuma estar meio murcha, é verdade, mas só de você poder escolher os tomates sem ter que ficar encolhendo a bunda para os outros carrinhos passarem, já vale a pena.
Não consigo, contudo, deixar de sentir um incômodo ao carregar produtos de limpeza pela madrugada, como se fizesse alguma coisa profana, imoral. (Mais ou menos como beber pela manhã, ou ir a um casamento de chinelos). Nada que não desapareça, é verdade, assim que me lembro que, se o pneu furar, posso achar um borracheiro aberto em qualquer canto da cidade. Poderia, ainda, encomendar Facas Guinsu, um terço bizantino ou um vatapá pernambucano, pelo celular, sem nem sair do meu carro. Mas é claro, quem é que iria fazer uma coisa dessas, não é mesmo, Rodolfo?

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